18 de abr de 2011

A Trindade, Lúcifer e o Processo de Individuação - Por Carl Gustav Jung


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Como fruto saído do pensamento, a Trindade deriva de uma necessidade de evolução exigida pela emancipação do espírito humano. Na história dos povos é sobretudo dentro da  Filosofia escolástica que esta tendência sobressaiu, constituindo como que um exercício preliminar que tornou possível o pensamento dos tempos modernos. A tríade é também um arquétipo, e como força dominadora não apenas favorece uma evolução espiritual, como a obriga, em determinadas circunstâncias. Mas logo a espiritualização ameaça assumir um caráter unilateral e prejudicial à saúde, e neste caso o significado compensatório da tríade passa inevitavelmente para o segundo plano. O Bem não se torna melhor, mas pior, quando se exagera o seu valor, e um Mal de pouca monta se torna grande, quando se lhe não presta a devida atenção e é recalcado. A sombra é uma componente da natureza humana, e só à noite não há sombra. Por isso a sombra é um problema.

http://3.bp.blogspot.com/_eXA1mwtxYV8/S5JBm6HTHEI/AAAAAAAAAIk/W7XEG_Ohmdk/s320/02a%C3%A7ao+da+trindade.jpgComo símbolo psicológico, a Trindade significa, primeiramente, a homoousia ou essência de um processo que se desenvolve em três etapas e que podemos considerar como fases de um amadurecimento inconsciente no interior do indivíduo. Nesta perspectiva, as três Pessoas divinas são personificações das três fases de um acontecimento psíquico regular e instintivo, que tem uma tendência a expressar-se sempre sob a forma de mitologemas e através de costumes rituais, como p. ex. nas iniciações da puberdade e da vida masculina, nas ocasiões de nascimento, de casamento, de doença e morte. Os mitos e os ritos, como nos mostra p. ex. a medicina do antigo Egito, têm significado psicoterapêutico - até mesmo em nossos dias. 288 Em segundo lugar, a Trindade indica um processo secular de tomada de consciência. Em terceiro lugar, a Trindade não quer apenas representar, p. ex., a personificação de um processo em três etapas, mas ser, de fato, o único Deus em três Pessoas, as quais possuem conjuntamente uma só e mesma natureza divina, pois em Deus não há passagem da potência ao actus, da virtualidade à realidade; pelo contrário, Deus é a pura realidade, o próprio actus purus. As três Pessoas divinas só se diferenciam pelo modo distinto de suas origens, pelas respectivas processões (o Filho gerado pelo Pai e o Espírito Santo espirado conjuntamente pelos dois - procedit a patre filioque). A homoousia, cujo reconhecimento atravessou tantas lutas, é absolutamente imprescindível do ponto de vista psicológico, pois a Trindade, enquanto símbolo psicológico, é um processo de mutação de uma só e mesma substância, isto é, da psique como um todo. A consubstancialidade do Filho, juntamente com o filioque, indica-nos que Cristo, o qual deve ser considerado psicologicamente como um símbolo do Si-mesmo, e o Espírito Santo, que deve ser entendido como a realização do Si-mesmo, a partir do momento em que é dado ao homem, procedem da mesma substância do Pai, isto é, indica-nos que o Si-mesmo é [uma realidade consubstancial ao Pai]. Esta explicação está de acordo com a constatação de que é impossível distinguir, empiricamente, os símbolos do Si-mesmo da imagem de Deus. A Psicologia pode apenas constatar esta impossibilidade, e nada mais. É digno de nota que a constatação "metafísica" ultrapassa muito a constatação psicológica. A referida impossibilidade de diferenciar nada mais é do que uma constatação negativa, que não exclui a existência de alguma diferença concreta. O que acontece, talvez, é que não se perceba mais tal diferença.

http://3.bp.blogspot.com/-IrFovsdpaqY/TWaV2zGqCPI/AAAAAAAAELU/M6IyWYKmcSc/s640/trinity-brahma-vishnu-and-shiva-HA21_l.jpgO enunciado dogmático, ao invés, fala-nos de uma filiação "divina" que o Espírito Santo comunica aos homens e que, em si, não se distingue da filiatio Christi (filiação de Cristo). Daí se conclui como foi importante que a homoousia vencesse a homoiousia (a semelhança de natureza). Isto quer dizer que com a recepção do Espírito Santo, o Si-mesmo do homem entra numa relação de consubstancialidade com a divindade. Como bem mostra a história eclesiástica, esta conclusão é sumamente perigosa para a existência da Igreja e este foi um dos motivos principais pelos quais a Igreja não insistiu em aprofundar a doutrina do Espírito Santo: em caso negativo, um desenvolvimento posterior levaria necessariamente a cismas destruidores e, em caso positivo, conduziria diretamente à Psicologia. Além do mais, havia uma série de dons que não eram aceitos irrestritamente pela. Igreja, como nos indica o pr6prio Paulo. Segundo Tomás de Aquino, os dons espirituais não estão ligados à bondade dos costumes ou a virtudes morais do indivíduo. Por isso a Igreja se reserva o direito de dizer quando algo é fruto da ação do Espírito Santo, e quando não é. Com isto ela retira do leigo a possibilidade, para ele nem sempre oportuna, de decidir por si mesmo a este respeito. Os Reformadores também perceberam que o Espírito "sopra onde quer", como o vento. Não é somente a primeira Pessoa da divindade, mas também a terceira, que se assemelha a um Deus absconditus [Deus escondido] e, por conseguinte, suas ações, como. as do fogo, ora são benéficas, ora prejudiciais quando encaradas de um ponto de vista meramente humano. Mas é justamente acerca deste último aspecto que a Ciência se baseia, a qual só consegue aproximar-se do que é estranho à sua natureza, tateando e com grande dificuldade.


A "criação", isto é, a matéria, não se acha incluída na fórmula geral da Trindade, pelo menos da maneira explícita. Por isso em relação à matéria só há duas possibilidades; ou ela é real, e por isso se acha envolvida no actus purus divino, ou é irreal, mera ilusão, e portanto se acha excluída da realidade. Mas contra esta última conclusão há, de um lado, o fato da Encarnação de Deus e a obra de Redenção em geral, e do outro, a autonomia e a eternidade do "Príncipe deste mundo", isto é, do Diabo, que foi apenas vencido, mas de modo algum destruído e que por ser eterno não pode ser destruído. Se a realidade da criação se acha incluída no actus purus também o Diabo aí se encontra - como seria preciso provar. Desta situação resulta uma quaternidade, mas uma quaternidade diferente daquela que foi anatematizada pelo Quarto Concílio de Latrão. - A questão que aí se tratava era a de saber se a essência de Deus exige ou não uma existência autônoma ao lado da existência das três Pessoas.

http://www.desideratto.com/wp-content/uploads/anjo-caido.jpgNo caso que tratamos a questão é a autonomia da independência, da criatura, que por si mesma é autônoma e eterna, isto é, trata-se do Anjo rebelde. Ele é a quarta figura antagônica na lista dos símbolos, cujos intervalos correspondem às três fases do processo trinitário. Da mesma forma, o Adversário, no Timeu, é a segunda componente do par contradit6rio, sem a qual não existe a totalidade da alma do mundo; aqui também o Diabo se acrescenta à tríade na qualidade de τό έν τέταςτν (o Uno [na qualidade de] quarto), para formar a totalidade absoluta. Se entender-se a Trindade como um processo, como tentei fazê-lo acima, este processo deveria prolongar-se até chegar à totalidade absoluta, com o quarto elemento. Mas com a intervenção do Espírito na vida dos homens, estes são inseridos no processo divino e, conseqüentemente, também no princípio de individuação e de autonomia em relação a Deus, princípio este que vemos personificado em Lúcifer, como vontade que se opõe a Deus. Sem Lúcifer não teria havido criação, e nem menos ainda uma história da salvação. A sombra e a vontade oponente são condições imprescindíveis para aquela realização. O ser que não tem vontade pr6pria ou, eventualmente, uma vontade contrária à do seu Criador e qualidades diversas das dele, como as de Lúcifer, não possui existência autônoma, não estando em condições de tomar decisões de natureza ética. Quando muito, é um mecanismo de relógio ao qual o Criador deve dar corda, para poder funcionar. Por isso Lúcifer foi quem melhor entendeu e quem melhor realizou a vontade de Deus, rebelando-se contra Deus e tornando-se assim o princípio de uma criatura que se contrapõe a Deus, querendo o contrário. Porque assim o quis, Deus dotou o homem, segundo Gênesis 3, da capacidade de querer o inverso do que Ele manda. Se assim não fosse, Ele não teria criado mais do que uma máquina, e neste caso a Encarnação e a Redenção do mundo estariam inteiramente fora de cogitação e a Trindade não se teria revelado, pois todas as coisas continuariam sendo apenas o Uno.


 

A lenda de Lúcifer não é em absoluto uma história de fadas do mesmo modo que a hist6ria do Paraíso. Tanto um como outra são mitos "terapêuticos". Naturalmente há quem se insurja contra a idéia de que o Mal e seus efeitos se achem incluídos em Deus, pois acham impossível que ele tenha desejado tal coisa. É verdade que devemos precavermo-nos de limitar a onipotência divina, baseados numa concepção humana subjetiva; entretanto e apesar de tudo, é isto precisamente o que pensamos. Mas não se trata de atribuir todos os males à divindade. Graças à sua autonomia moral, o homem pode imputar a si mesmo uma parte considerável de tudo o que de menos bom acontece. O Mal é relativo; em parte é evitável e em parte é uma fatalidade. Isto se aplica também à virtude, e falarmos da santidade pessoal] (Cf. De Veritate, XII, a: Suma Teológica, I - II, p. 172, a 4). Tirei esta observação de um artigo sobre St. Thomas's Conception of Revelation, da autoria de P. Victor White O. P. (Oxford). O autor colocou seu manuscrito gentilmente ao meu dispor. 2 O Axioma de Maria. Veja-se Psychologie und Alchemie, 1952, p. 2245. Obras completas, vol. 12, § 209ss. muitas vezes não sabemos o que é pior. Pense-se p. ex. no destino de uma mulher casada com um homem notoriamente santo! Que pecados os filhos não terão de cometer para poderem sentir sua própria vida, frente à influência avassaladora de pais como estes! Enquanto processo energético, a vida precisa de pólos contrários, sem os quais, como sabemos, é impossível haver energia.

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O Bem e o Mal nada mais são do que os aspectos morais destas antinomias. O fato de não podermos ver estes últimos senão sob este prisma dificulta consideravelmente o desenrolar da vida humana. Este sofrimento, que acompanha inevitavelmente nossa vida, é incontornável. A tensão polar que gera a energia é uma lei universal, expressa com adequação no yang e yin da filosofia chinesa. O Bem e o Mal são sentimentos de valor do âmbito humano que não podemos estender além. Para lá destes limites, o que ocorre não é atingido pelo nosso julgamento. Não se pode aprender a divindade com tributos humanos. Onde ficaria, aliás, o temor de Deus, se só pudéssemos esperar do Deus o "bem", isto é, aquilo que nos parece ser "bom"? A condenação eterna não corresponde muito à bondade tal como a entendemos! Embora o Bem e o Mal sejam permanentes como valores morais, precisam, entretanto, passar por uma revisão psicológica: muita coisa que pelos seus efeitos nos parece fundamentalmente má não provém absolutamente de uma malícia humana correspondente, mas de uma ignorância profunda e de uma falta de senso de responsabilidade. É por isso que chamamos de Bem o que muitas vezes produz os mesmos efeitos que o Mal. Basta pensarmos nas devastadoras conseqüências da proibição americana de fabricar e vender álcool, ou nos cem mil autos de fé da Espanha, que partiram de um louvável zelo pela salvação das almas. Uma das raízes mais fortes do Mal é a inconsciência e é por isto que eu tanto gostaria de que o Logion [dito] de Jesus, já  encionado: "Se sabes o que fazes, és feliz; se não sabes, és maldito", se encontrasse ainda no Evangelho, ainda que só se ache registrado uma vez. Gostaria de antepô-lo como epígrafe a uma renovação moral.

http://3.bp.blogspot.com/_OdpVE177lMA/THLpCzPv2NI/AAAAAAAAAMQ/ZHEWp4nzvjc/s320/espelho25.jpgO desenrolar do processo de individuação começa em geral com uma tomada de consciência da "sombra", isto é, de uma componente da personalidade que, ordinariamente, apresenta sintomas negativos. Nesta personalidade inferior está contido aquilo que não se enquadra ou não se ajusta sempre às leis e regras da vida consciente. Ela é constituída pela "desobediência" e por isso é rejeitada não só por motivos de ordem moral, mas também por razões de conveniência. Uma cuidadosa investigação mostra-nos que aí se acha, entre outras coisas, pelo menos uma função que deve cooperar na orientação psicológica consciente. Ela coopera, não movida por objetivos conscientes, mas por tendências inconscientes, cuja finalidade é de natureza diversa. Refiro-me à quarta função, dita função de valor secundário, que é autônoma em relação à consciência e se acha a serviço de objetivos conscientes. É ela que está à base de todas as dissociações neuróticas e só pode ser integrada na consciência, quando os conteúdos inconscientes correspondentes se tornam simultaneamente conscientes. Mas esta integração só pode realizar-se e tornar-se proveitosa quando se reconhecem, de algum modo, e com o devido senso critico, as tendências ligadas ao processo, tornando-se possível sua realização.

Isto leva à desobediência e à rebelião, mas leva também à autonomia, sem a qual a individuação não é possível. Infelizmente a capacidade de querer outra coisa terá de ser real, se é que a Ética tem um sentido. Quem se submete, a priori, à lei ou à expectativa geral, comporta-se como o homem da Parábola, que enterrou o seu talento. O processo de individuação constitui uma tarefa sumamente penosa, em que há sempre um conflito de obrigações, cuja solução supõe que se esteja em condições de entender a vontade contrária como vontade de Deus. Não é com meras palavras, nem com auto-ilusões cômodas que se enfrenta o problema, porque as possibilidades destrutivas existem em demasia. O perigo quase inevitável consiste em ficar mergulhado no conflito e, conseqüentemente, na dissociação neurótica. É aqui que intervém beneficamente o mito terapêutico, com sua ação libertadora, mesmo quando não encontremos qualquer vestígio de sua compreensão. É suficiente - como sempre foi - a presença vivamente sentida do arquétipo. Esta só falha quando a possibilidade de uma compreensão consciente parece exeqüível e não se concretiza. Em tais casos, é simplesmente deletério permanecer inconsciente, embora seja precisamente isto o que acontece hoje em dia, em ampla escala, na civilização cristã. Muito daquilo que a simbólica cristã ensinava está perdido para um imenso número de pessoas, sem que hajam percebido aquilo que perderam. A cultura, p. ex., não consiste no progresso como tal, nem na destruição insensata do passado, mas no desenvolvimento e no refinamento dos bens já adquiridos.

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A religião é uma terapêutica "revelada por Deus". Suas idéias provêm de um conhecimento pré-consciente, que se expressa, sempre e por toda parte, através dos símbolos. Embora nossa inteligência não as apreenda, elas estão em ação porque nosso inconsciente as reconhece como expressão de fatos psíquicos de caráter universal. Por isso basta a fé, quando existe. Toda ampliação e fortalecimento da consciência racional, entretanto, leva-nos para longe da fonte dos símbolos. É a sua prepotência que impede a compreensão de tais símbolos. Tal é a situação que enfrentamos em nossos dias. Não se pode fazer a roda girar para trás, nem voltar a acreditar obstinadamente naquilo "que sabemos não existir". Mas bem poderíamos prestar atenção ao significado real dos símbolos. Isto nos permitiria não apenas conservar os tesouros incomparáveis da Cultura, como também abrir um novo caminho que nos devolveria às verdades antigas, as quais, por causa do caráter singular de sua simbólica, desapareceram de nossa "razão". Como pode um homem ser Filho de Deus e ter nascido de uma Virgem? Isto é como que uma bofetada em plena face. Entretanto, um Justino Mártir não mostrou a seus contemporâneos que eles atribuíam tais coisas a seus heróis, e com isto não encontrou audiência junto a eles? Isto aconteceu porque, para a consciência daquela época, tais símbolos não eram tão desconhecidos como para nós. Hoje em dia, esses dogmas encontram ouvidos moucos, pois já não existe mais nada que corresponda a tais afirmações. Mas se tomarmos essas coisas como são, isto é, como símbolos, teremos forçosamente de admirar sua verdade profunda e declarar-nos gratos àquela Instituição que não somente as conservou, mas as desenvolveu através dos dogmas. Ao homem de hoje falta a capacidade de compreensão, que poderia ajudá-lo a crer.

Se ousamos aqui submeter antigos dogmas, que se nos tornaram estranhos a uma reflexão psicológica, não o fizemos com a pretensão de saber tudo melhor que os outros, mas sim movidos pela convicção de que é impossível que o dogma, pelo qual se combateu durante tantos séculos, seja uma fantasia oca e sem sentido. Para isso situei-me na linha de consensus omnium [consenso universal], isto é, de arquétipo. Foi somente isto que me possibilitou uma relação direta com o dogma. Como "verdade" metafísica ele me era inteiramente inacessível, e julgo lícito supor que eu não tenha sido o único ao qual isto aconteceu. O conhecimento dos fundamentos arquetípicos universais me animou a considerar o quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est como fato psicológico que ultrapassa o quadro da confissão de fé cristã, e tratá-lo simplesmente como objeto das Ciências físicas e naturais, como um fenômeno puro e simples, qualquer que seja o significado "metafísico" que lhe tenha sido atribuído. Sei por experiência própria que este último aspecto jamais contribuiu, por pouco que fosse, para a minha fé ou para a minha compreensão. Ele não me dizia absolutamente nada. Entretanto, tive de reconhecer que o Símbolo de fé possui uma verdade extraordinária pelo fato de ter sido considerado, durante dois milênios, por milhões e milhões de pessoas, como um enunciado válido daquelas coisas que não se podem ver com os olhos, nem tocar com as mãos. Este fato deve ser bem entendido, porque da "Metafísica" só conhecemos o produto humano, quando o carisma da fé, tão difícil de ser mantido, não afasta de nós toda dúvida e, conseqüentemente, nos liberta de toda angustiosa investigação. É perigoso que tais verdades sejam tratadas unicamente como objeto de fé, pois onde há fé, ali também está presente a dúvida, e quanto mais direta e mais ingênua é a fé, tanto mais devastadoras são as idéias quando a primeira começa a eclipsar-se. Em tais ocasiões é que nos mostramos mais hábeis do que as cabeças enevoadas da tenebrosa Idade Média; e então acontece que a criança é despejada juntamente com a bacia em que foi lavada.

Apoiado nestas e noutras considerações de natureza semelhante é que mantenho sempre uma atitude de extrema cautela, ao abordar outros significados possíveis, ditos metafísicos, da linguagem arquetípica. Nada as impede de que eles cheguem afinal de contas até a base do mundo. Nós é que seremos tolos se não o percebermos. Assim pois não posso presumir que uma investigação do aspecto psicológico tenha esclarecido e resolvido definitivamente o problema dos conteúdos arquetípicos. Na melhor das hipóteses, o que fiz talvez não passe de uma tentativa mais ou menos. Penso aqui no ponto de vista protestante da sola fide. bem ou mal sucedida de abrir um caminho que permita compreender um dos lados acessíveis do problema. Esperar mais seria uma temeridade. Se, pelo menos, conseguir manter viva a discussão, meu objetivo já se acha mais do que cumprido. Ou por outra, se o mundo viesse a perder de vista estes enunciados, estaria ameaçado de um terrível empobrecimento espiritual e psíquico.

Obra Completa: Carl Gustav Jung - Interpretação Psicologica Do Dogma Da Trindade


“Ninguém vai ao Pai, senão por Mim” (Jo 14,6)

“Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” (Apocalipse 22:16)


  

12 de abr de 2011

Lilith





      

"Teoria da Involução" - O Bem, o mal e além..

O mundo é o fiel reflexo do somatório de idéias que circulam pela mente de nossa humanidade, na qual se digladiam as lendárias forças que denominamos bem e mal. Indo além e não nos detendo a relativizar estas denominações, identifique o mal como a força cuja pretensão é confinar e escravizar a vida para que sirva a propósitos individuais ou de pequenos grupos dominantes da civilização. O bem você deve identificar como a força que luta pela libertação da vida, pela transparência dos veículos físicos e institucionais para que a distribuição da Vida da vida seja ampla e beneficie a maior quantidade possível de pessoas e reinos da natureza. Além destas forças em perpétuo conflito há também sua transcendência, o ir além do conflito e espionar o jeito de pensar do Altíssimo.

O.Q.






  

8 de abr de 2011

Andando sobre as águas

Quando escritos sagrados são lidos, todo detalhe é de grande importância, é nas pequenas coisas ditas que as grandes revelações acontecem. No Novo Testamento cristão se descreve a passagem quando o Cristo andou sobre as águas. Não é dito que ele pairou sobre as águas, mas que andou sobre elas. Se Cristo andou sobre as águas nós humanos também podemos fazer o mesmo, mas temos de andar e não ficar parados. Na prática este ensinamento simbólico significa que se ficarmos quietos esperando por um milagre acabaremos afundando nos problemas que tentamos superar. Porém, se aplicarmos dinamismo a nossas vidas e nos envolvermos continuamente em nossas tarefas e nos esforçarmos para fazer algo novo acontecer, então o milagre de andar sobre as águas será revelado através de nossas presenças também.

O. Q. - 08/04/11

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Aprendi com o pensamento nativo que assim como não devemos bloquear as águas de um rio, não devemos bloquear nossas emoções, mas sim fazer com que elas fluam harmoniosamente como às margens de um rio. Pensando nisso, o que acontece, com águas paradas? O que acontece quando bloqueamos nossas emoções? O Elemento água está diretamente ligado às emoções, assim como a Lua.
Como aprendemos a lidar com as emoções no Xamanismo?
Quando não estamos bem, por qualquer motivo, sentimos uma sombra escura, e somos arrastados à medos, depressões, desesperanças. Busca-se a felicidade, mas, para alguns, ela é sempre temporária, não dura.

http://4.bp.blogspot.com/_NpvxtNd4p9k/Sk-PG42PQmI/AAAAAAAAAns/DJYeyh39eEo/s400/Ying_Yang_Fogo_Agua.jpgAs crises pessoais ocorrem quando percebemos a inutilidade de um velho padrão, mas continuamos insistentemente apegados a ele, porque nos é mais seguro e familiar.
Para isso precisamos de algo verdadeiro, simples e eficiente, para poder atravessar as águas das emoções que acompanham as transformações, e o crescimento que advém das crises pessoais.
Precisamos estar conscientes que na medida da expansão da consciência, velhas estruturas tendem a cair. O modo antigo vai se disolvendo, tomamos medidas para entorpecer nosso sofrimento, criamos ilusões.
A raiva é a lembranças da dor passada e revisitada. A irritação produz uma substância que se espalha vagarosamente pelo nosso sistema nervoso, interrompe canais elétricos, contamina a aura.

O medo é a dor da lembranças projetada no futuro. Vivemos num mundo com um fluxo invisível de águas de sentimentos. E, as vezes somos inundados pelas ondas das experiências vividas no passado, e quem sabe em outras vidas.

Não há como evitar os sentimentos, somos seres humanos. Há como passar por eles e aprender com suas lições. Negar ou evitar os sentimentos, os intensificam, eles crescem e se tornam maiores na nossa vivência. Aceitar, é reafirmar que estamos prontos para acompanhar e transpor o sentimento de imediato, de maneira que podemos aprender, e crescer na jornada.
Nos povos primitivos e nas sociedades contemporâneas, o medo, embora negado, sempre esteve presente na alma humana.

O medo afeta principalmente a áreas: 

Nuca – neutralizando emoções e impedindo que as informações cheguem com clareza ao cérebro, processador das mensagens consccientes e aquivo do inconsciente. Ficam retidos no pescoço e nos ombros.



Plexo Solar – se a natureza emocional está em níveis baixos, uma energia se acumula no plexo solar diminuindo a vitalidade e a imunidade do corpo.
O medo é um sentimento que exerce grande controle e limita nossa atitude, nossa criatividade. Através de um chamado interior ele vive um confronto existencial que o força a sair de uma zona de conforto, do falso brilho, da alienação. Reforçando a coragem e a determinação, o praticante de xamanismo, mobilizado por visões, introvisões e vivências, expande a sua consciência, podendo processar transformações de profundas proporções na sua vida.

Praticar xamanismo é ir em busca da excelência espiritual, é enxergar a realidade existente por trás dos conceitos, é se harmonizar com as marés naturais da vida. É trilhar o Caminho Sagrado, atravessando os portais da mente, das emoções, do corpo e do espírito.
Só você pode transformar a sua vida. O poder de decisão é o poder pessoal que poderá fazer isto. O xamanismo pode mostrar como abrir canais para que você descubra quais são as transformações necessárias ao Seu Ser, para caminhar na beleza e amor na Roda da Vida, para você seguir o caminho do seu coração e tocar em sua própria verdade conscientemente.

Kenneth Meadows, em Medicine Way, descreve o Corpo Emocional como um veículo que nos habilita para experimentar emoções e desejos, amor, prazer e sentimentos de elevação, assim como as sensações de desconforto e culpa.


O corpo emocional é um veículo mais móvel do que o físico ou energias corporais, e é também capaz de sentir vibrações que o físico ou energia corporal é inábil para perceber. O corpo emocional é capaz de converter pensamentos em sentimentos e vice-e-versa. Ele trabalha com glândulas e sistema nervoso, através da química e o funcionamento elétrico.

Devido à sua fluidez, as emoções humanas estão relacionadas com a água. Definindo as emoções como movimento da mente, a energia da mente pega ou dá impressões através de sentimentos, ou melhor a emoção é uma energia da mente que pode ser sentida. E é essa energia mental que toca o Espírito – o coração – e nós somos conscientemente despertos através dos sentimentos.

A emoção é portanto um poderoso veículo de força e poder, e é também uma ânsia por expressão. Como a água, ela pode ser agitada e tornar-se sombria e fora de controle. Nessa condição ela pode debilitar, ser destrutiva e confusa. Como a água, ela pode estourar na tempestade, afetando tudo no seu caminho, sem que possa ser controlada. Ou nós controlamos nossas emoções e as dirigimos, ou ela nos controla.

Emoções estão relacionadas ao passado – que é outro componente da Direção Norte (Sul no Hem. Norte) da Roda Medicinal – e nos fixa com o pessoal, objetos ou situações. Emoções têm afinidade com a cor vermelha – a cor da energia da força expressa no plano físico. Para prevenir-nos de sermos arremessados pelo oceano das emoções, precisamos nos libertar das fixaçõpes do passado que nos limita e inibe, que causa dor emocional no presente e que rouba nossos sonhos de futuro.

Cada degrau de apredizado é uma jornada até territórios desconhecidos e algumas vêzes o medo do desconhecido simplesmente é a causa do desconhecimento. O medo é o inimigo da Direção Norte (Sul no Hem. Norte).

Existem dois tipos de medo, o medo real e o medo ilusório. O medo real é devido a pessoa perceber que alguma coisa é possível de acontecer, com base na sua realidade, em fatos reais. Ao atravessar a rua, você olha para os lados. Não fica em locais sinistros e conhecidos como perigosos, etc. Esse medo nos preserva.
O medo ilusório é o medo de algo que possa vir a acontecer no futuro. por exemplo medo do dinheiro acabar e no presente está bem financeiramente, de um ataque do coração quando você goza de boa saúde. O medo do que poderá acontecer se o seu parceiro te abandonar, mesmo sendo boa a relação atualmente. O medo de falhar num exame, mesmo estando preparado para ele, etc.

O maior medo da humanidade é o ilusório. É esse o medo que devemos nos livrar. Como? Não é fugindo dele, mas encarando-o com claridade da mente. Aplicando claridade na mente e tendo conhecimento de como lidar com a situação que chega para você do tamanho que ela é.


Victor Sanches em “Ensinamentos de Don Carlos (Castañeda)”:


http://kaduguitar.files.wordpress.com/2010/07/emocoes.jpgConvém fazer uma distinção, para fins práticos, entre emoções e sentimentos.

A distinção é bem mais simples do que se poderia supor, enquanto os sentimentos são uma reação natural ao fato de nos darmos conta, de percebermos, as emoções, por sua vez, são o produto não da percepção, mas do pensamento; da razão (que geralmente não é muito razoável no homem comum). Os sentimentos não são desgastantes, ao passo que as emoções o são em alto grau.

Os sentimentos básicos, alegria, tristeza, surgem do fato de dar-se conta.

Nosso corpo por exemplo, quando entrevê seu destino fatal, nos avisa por meio de uma tristeza ou melancolia que não é dolorosa nem desgastante, e sim nos deixa limpos de mesquinharias e nos faz bem.

Assim, também a alegria genuína, aquela que brota bem dentro, que não precisamos provocar artificialmente com piadas ou comédias, surge de um ato de dar-se conta que não passa pela razão, ocorre quando nosso ser percebe algo que o alegra.

Não precisamos pensar para sentir a felicidade por uma vida que nasce, que se movimenta, por uma caricia ou um olhar que nos abraça, por um beija-flor libando o néctar ou por uma árvore a dançar com o vento.
Já as emoções não surgem da percepção, mas do pensamento, não poderiam ocorrer se não pensássemos e, além disto, ao deixar a percepção em segundo plano, as emoções nos colocam em situação que dificilmente podermos lidar com a nossa realidade de maneira sensata.

Exemplos típicos de emoções são : ira, o ciúme, o rancor, a inveja, a autocompaixão, a depressão autodestrutiva, etc.

Nenhuma dessas emoções pode ocorrer se não tivermos previamente os pensamentos adequados. Quem pode zangar-se sem pensar?…Ninguém ! Para alguém zangar-se, primeiro é preciso falar consigo mesmo e dizer-se que o que lhe fizeram não foi justo, que não merecia, ou pensamentos semelhantes. quem não acreditar, tente zangar-se sem palavras ou pensamentos.

Segue Victor Sanches em “Ensinamentos de Don Carlos (Castañeda)”:
 
Consideremos o exemplo de um namorado que sente ciúmes porque viu a sua parceira conversar muito sorridente com outro homem. Esse é o fato simples: ali há uma mulher (a namorada) conversando com um homem (o desconhecido) e ela sorri. Por acaso esse fato provoca ciúmes? Não! O que produz a emoção desgastante do ciúme é o fato de o apaixonado em questão, a partir de sua “história pessoal”, seja porque viu muitos filmes, ouviu demais as “canções de amor” do rádio ou viveu o desamor de seus pais, ao ver a sua namorada conversando e sorrindo, começar a pensar de modo compulsivo a falar consigo, mentalmente, que ela não tem porque traí-lo assim, que a única pessoa a arrancar o sorriso da moça devia ser ele, que ele não a engana com outras mulheres ou pelo menos não o faz tão descaradamente, que ela o está desrespeitando, etc, etc.

Este tipo de pensamento e não os fatos em sí provoca essa dolorosa e desgastante experiência do ciúme.
Pouco importa no caso se a mulher estava conversando com um primo, se apenas batia um papo com um amigo ou se tinha mesmo outro amante, o ciúme não vem dalí, mas da cabeça do ciumento.

Assim que afundamos no acesso emocional, a realidade afasta-se cada vez mais; mais nos falamos, menos percebemos e assim por diante. Estando tão longe da realidade, como poderíamos lidar com ela? Naturalmente, violentamos e somos capazes de acabar com qualquer vestígio de amor ou beleza presente e ainda achar que somos vítimas. Assim acontece com os humanos, por isso vale mais lutar para virar um guerreiro.

Como o conjunto das nossas ações, as emoções também são repetitivas e estão determinadas pela “História Pessoal” . Desse modo, cada qual tem seus próprios “hábitos emocionais ” e estes serão uma das suas formas pessoais de esbanjar energia e enfraquecer. por isso, não é difícil descobrir, se fizermos um exame cuidadoso, que os conflitos e problemas emocionais da vida da gente se repetem ciclicamente. Não importa que mudemos pessoas e lugares, os problemas se repetem muitas vezes.

Tudo isto vale para as outras emoções, tão perniciosas e geradas da mesma forma.
Mas agora sabemos um segredo que, se usado na prática, é um tesouro de valor incalculável: as emoções não podem ocorrer sem pensamentos, e ainda, não podem ocorrer sem os pensamentos apropriados.

Isso nos coloca frente a frente com uma forma direta de economia de energia. Se estamos prestes a cair em alguma emoção desgastante, podemos simplesmente entrar num estado de Silêncio Interior e a emoção desgastante não poderá acontecer. Se esta alternativa está fora das nossas atuais possibilidades, mudemos então o conteúdo do diálogo interior; façamos uma canção com os nossos pensamentos, pensando neles em rima, de trás para frente, num idioma estranho, ou concentremo-nos por inteiro na taboada, ou alguma canção infantil, no caso tanto faz, sem os pensamentos apropriados, a emoção não se apresenta.

fonte: Inatitude

 
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