22 de nov de 2011

Mundo do Porvir; Nova Ordem, Princípios, Ensaios...

...O indivíduo, por conseguinte, é que é importante, e não a sua idéia ou aquele a quem segue, ou a sua pátria, ou a sua crença. Vós é que tendes importância, e não a ideologia ou a nação, a bandeira ou o credo a que pertenceis; (…) Esses fatores de condicionamento podem, num dado nível, ser úteis como conhecimento; mas, noutro nível, (…) tornam-se eles daninhos e destrutivos em extremo. (…) (Nosso Único Problema, pág. 82-83)


http://farm3.static.flickr.com/2036/2399167382_1ce76a128f.jpgSe queremos ter paz no mundo, não podemos mais pertencer a nenhuma nacionalidade. Aqueles que são pessoas importantes no mundo, que têm posição, prestígio, não desejarão naturalmente fazer nenhuma experiência nesse sentido (…). Só as pessoas comuns, aquelas que não têm nem poderio nem posição e que lutam e se esforçam por compreender, são essas, talvez, as que começarão a experimentar e a descobrir por si mesmas. (Viver sem Temor, pág. 23)

(…) A submissão do homem aos interesses materiais equivale, em última análise, a provocar guerras e catástrofes econômicas e sociais. Procurar o enriquecimento por meio de coisas, sejam elas manufaturadas, sejam produto do intelecto, é criar pobreza interior, (…) desventura. O acúmulo de tais riquezas e a relevância que lhes atribuímos privam o pensamento-sentimento de compreender o real, o único fator capaz de trazer ordem, clareza, felicidade. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 152)

Por certo, toda mudança exige ordem. Vemo-nos atualmente num estado de desordem, e, para se sair da desordem, necessita-se de ordem: ordem social, ordem dentro de nós mesmos, e ordem em nossos valores (…) perspectiva das coisas. Assim, pois, mudar (…) significa estar livre para estabelecer a ordem. (…) A sociedade teme que a liberdade acarrete desordem, porque está satisfeita em viver nessa desordem a que chama “ordem”. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 26)

Assim, quando emprego a palavra “mudança”, entendo: “mudança da desordem para a ordem”; porque, como indivíduos humanos, não nos achamos em ordem. Estamos em conflito, (…) confusos, ambiciosos, ávidos, invejosos (…) Temos medo, terror, de tantas coisas; e alterar inteiramente essa estrutura de medo, significa promover a ordem. (…) (Idem, pág. 26)

(…) A ordem, portanto, não é produto de revolta, porque a revolta contra a sociedade é uma reação que só produzirá uma série de ações dentro dos limites da estrutura social, e, como acontece com o comunismo ou qualquer outra espécie de reação, volta-se, com o tempo, ao ponto de partida. (Idem, pág. 26-27)

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A ordem - que é em essência o começo e o fim da virtude - não surge (…) mediante ato deliberado. Qualquer ato deliberado para estabelecer a ordem é imoral (…) A ordem social que estabelecemos em várias partes do mundo baseia-se (…) na competição, na inveja e na brutalidade. Nossa ordem social é desordem e, por conseguinte, imoral. Não estou condenando a sociedade, porém apenas discriminando fatos. (O Descobrimento do Amor, p. 111)

Mas a ordem é negada por causa da própria estrutura básica, psicológica da sociedade. Ainda que se proclame o contrário, a sociedade está notoriamente baseada na competição, na avidez, no impulso agressivo (…) Em tal sociedade não pode existir liberdade (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 116)

A ordem só pode nascer do percebimento da desordem. Não podeis criar a ordem; percebei bem esse fato. O que podeis fazer é tornar-vos cônscios da desordem existente tanto no exterior como no interior. Uma mente desordenada não pode criar nenhuma ordem, porque não sabe o que significa ordem.  Poderá unicamente (…) criar um padrão a que chama “ordem” e, depois, tratar de ajustar-se a esse padrão. Mas, se a mente se torna cônscia da desordem em que está vivendo - ou seja, do negativo, sem projetar o positivo - a ordem se torna então algo extraordinariamente criador, um movimento vivo. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 121)


A ordem que vem da compreensão da desordem, não segue nenhum plano previamente traçado (…) nenhuma autoridade, ou vossa própria experiência. Essa ordem, é óbvio, deve surgir sem se fazer nenhum esforço - pois o esforço deforma -, sem se exercer nenhum controle. (Fora da Violência, pág. 78)

Controle supõe repressão, rejeição ou exclusão, separação entre o “controlador” e “a coisa controlada”, supõe conflito. (…) Dizeis: “como pode haver ordem sem controle, sem a ação da vontade?” - mas, como já dissemos, controle implica separação entre “o controlador” e a coisa que vai ser controlada; nessa divisão, há conflito, deformação. Quando se percebe isso realmente, está terminada a separação entre “controlador” e “coisa controlada” e, por conseguinte, há compreensão. (…) (Idem, pág. 78)

A ordem não é um plano, um padrão de vida. Ela só vem ao compreendermos o “processo” total da desordem. (…) Nossa vida é desordem, ou seja, contradição - dizer uma coisa, fazer outra, (…) Essa é uma existência fragmentária e, dentro dessa fragmentação, queremos descobrir uma espécie de ordem. (…) A mente sujeita ao controle e à disciplina, padrão estabelecido pela própria pessoa, pela sociedade ou por determinada cultura, não é livre, é (…) deformada. (…) E pela compreensão da desordem, de como se origina ela, surge a ordem - uma coisa viva. (Fora da Violência, pág. 117)

A ordem, pois, é necessária, e a própria compreensão da desordem cria sua peculiar disciplina, e esta é ordem, sem repressão nem ajustamento. (…) Disciplina significa “aprender”, e não acumular conhecimentos mecânicos; cumpre-nos aprender a respeito da vida desordenada que estamos levando (…) Se o estamos observando em nós mesmos, surgirá então, naturalmente, a ordem, a liberdade; estaremos livres de toda e qualquer autoridade e, por conseguinte, do medo. Poderemos errar, mas saberemos corrigir imediatamente os nossos erros. (Idem, pág. 117-118)

A ordem, conforme me parece, só pode realizar-se ao descobrirmos por nós mesmos o que gera desordem; da compreensão do verdadeiro fator da desordem, nascerá naturalmente a ordem. (…) Assim, a ordem a que nos referimos não é um ato positivo, porém só se realiza pela compreensão e negação da desordem. Mas, da compreensão da desordem resulta uma ordem natural. (…) (A Suprema Realização, pág. 222-223)

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Cumpre-nos averiguar o que é que gera a desordem, tanto no mundo exterior como no interior. A compreensão da desordem exterior traz a compreensão da desordem interior. Mas essa desordem que dividimos em “exterior” e “interior” é essencialmente uma só e mesma coisa; (…) porquanto cada um de nós (…) é ao mesmo tempo sociedade e indivíduo. O indivíduo não está separado da sociedade; ele criou a estrutura psicológica da sociedade, e nela se acha todo enredado. Se trata de libertar-se dessa estrutura psicológica. (Idem, pág. 223-224)

Ordem significa um estado mental em que não há contradição e, portanto, nenhum conflito. Isso não implica estagnação ou declínio. A ordem que obedece a uma fórmula, a um ideal ou conceito é, simplesmente, desordem. Se um ente humano se ajusta a um padrão de pensamento - uma certa coisa ideal que ele deveria ser - nesse caso está meramente a imitar, a ajustar-se, a disciplinar-se, a forçar-se, a fim de adaptar-se a um molde. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 21)

Ora, (…) estamos começando a ver o que é necessário, e que a ordem, a absoluta ordem interior, é indispensável. Há duas espécies de ordem: a primeira é a ordem gerada pela disciplina, a ordem do soldado, exercitado (…) para obedecer, ajustar-se, cumprir instruções. (…) Essa é (…) uma ordem puramente mecânica e insignificante. (Onde está a Bem-Aventurança, pág. 56)

Mas, há outra ordem, de espécie totalmente diferente, não dependente de ajustamento, de imitação, de padrão algum. (…) Porque a liberdade é absolutamente necessária. (…) E a liberdade não vem por meio da disciplina, mas por meio da ordem - não a ordem mecânica da respeitabilidade, (…) que a sociedade quer impor ao homem, (…) de uma sociedade corrupta, em decomposição. A ordem a que nos referimos é de espécie e dimensão totalmente diferentes; ela vem com a compreensão da desordem. Da negação do que não é verdadeiro, vem o positivo. (Idem, pág. 56)

Passemos, pois, a descobrir o que é a desordem. Toda a atual estrutura social baseia-se na desordem, com divisões de classe e de outra espécie. Quando cada homem só está a trabalhar para si próprio, a competir, a endeusar o êxito e a fama - isso faz parte da desordem, tanto exterior como interior. Desordem significa conflito interior, profundo, na estrutura psicológica; e conflito exterior, com o próximo, com a esposa ou marido. (Onde está a Bem-aventurança, pág. 56-57)

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Existirá sempre conflito enquanto houver atividade egocêntrica. E o conflito gera, necessariamente, a desordem. Há a desordem decorrente das nacionalidades (…); a desordem causada pelas religiões, separando as pessoas (…) E, para descobrirmos o que é a ordem (e ela existe dentro de nós, a ordem absoluta, e não uma ordem relativa, circunstancial: ordem total e absoluta) - para descobrirmos o que é a ordem, temos de compreender o que é a desordem, (…) a desordem existente no mundo e os fatores que a produzem. (…) (Idem, pág. 57)

A ordem, pois, é virtude. (…) A ordem, como a virtude, não é cultivável; se cultivais a humildade, não sois, de certo, humilde (…) O que se pode fazer é apenas ver a desordem total existente dentro e fora de nós - vê-la! (…) Não se pode ver a desordem por meio de explicações, (…) de análise das várias causas da desordem. (Onde está a Bem-Aventurança, pág. 57)

O homem, no mundo inteiro, está sendo organizado - econômica, social e religiosamente. Vive em cidades densamente povoadas, em arranha-céus, em “gavetas”, em “caixas”. (…) E, enredado nessa espantosa “eficiência” organizadora (…), busca o homem fronteiras mais longínquas, espaço mais amplo, (…) ilimitado, sem horizonte, sem margens. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 135)

Vós não deveis seguir a ninguém, inclusive a mim mesmo. Pela vossa voluntária compreensão é que chegareis a criar qualquer organização que se torne necessária. Ao passo que, se uma organização vos fosse imposta, tornar-vos-íeis meros escravos dessa organização e seríeis explorados. (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 16-17)
 
Eu não sou contra todas as organizações. Sou contra aquelas que impedem o preenchimento individual, especialmente a organização que se chama religião, com seus temores, crenças (…) Supõe-se que ela auxilia o homem, porém, de fato, embaraça profundamente o seu preenchimento. (Idem, pág. 17)

(…) O problema é também vosso, porquanto todos nós necessitamos de roupa, alimentação e moradia. Essas coisas precisam ser organizadas em escala mundial, e não apenas numa escala comunal, o que significa que necessitamos de homens que não estejam com o sentido no nacionalismo, etc., mas, sim, no próprio homem. Que tenham em mente (…) a felicidade humana. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 14)

No entanto, podemos viver em extrema simplicidade e sensatez, e conseqüentemente em paz, se nossa mente e nosso coração não estão entranhados do desejo de posse, quer das coisas feitas pela mão, quer das criadas pela mente. (O Caminho da Vida, pág. 20)

O de que necessitamos em matéria de alimentação, vestuário e teto, chegar-nos-á de maneira fácil e racional, quando as nossas vidas tiverem sido libertadas da violência. Essa liberdade que nos abriga da violência é o Amor. (Idem, pág. 20)


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O especialista, econômico ou religioso, político ou social, nos está conduzindo ao desastre. Cada um de nós deve interessar-se com empenho na criação de uma nova sociedade ou uma nova civilização, resguardada das causas que estão destruindo e desintegrando o mundo em que vivemos. (…) (Idem, pág. 20)

(…) Podem os especialistas oferecer-nos planos de ação cuidadosamente elaborados, mas não são as ações planejadas que irão trazer-nos a salvação, mas tão somente a compreensão do processo total do homem, isto é, de vós mesmos. (O Caminho da Vida, pág. 25)

(…) Isto é, ao invés de esperarmos por um milagre que altere este sistema, é necessário que haja uma completa mutação revolucionária cuja necessidade todos reconhecem. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 154)

(…) Quer isto dizer, senhores, que somente pode haver verdadeira liberdade de comércio, desenvolvimento das indústrias, etc., quando não mais houver nacionalidades no mundo. (…) Enquanto houver muros tarifários protegendo cada país, haverá guerras, confusão e caos; (…) (Idem, pág. 155)

Ora, na minha opinião, a exploração manifesta-se quando os indivíduos buscam ter mais do que exigem as suas necessidades essenciais. (…) Naturalmente, necessitamos de alimento, abrigo, vestuário e tudo o mais; porém, a fim de tornar essas coisas possíveis para todos, os indivíduos têm de começar a perceber quais são as suas próprias necessidades, e organizar sobre elas todo o sistema de pensamento e ação. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 153)

Pergunta: O senhor, como outros orientais, parece ser contrário à industrialização. Por quê?
Krishnamurti: Não sei se muitos orientais são contrários (…), mas julgo já haver explicado (…) não ser a industrialização a solução para os problemas humanos e os conflitos e aflições deles decorrentes. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 92)

A mera industrialização estimula os valores materiais; banheiros e automóveis amplos e luxuosos, distrações, diversões e tudo o mais. Aos valores eternos se sobrepõem os transitórios. Procura-se a felicidade e a paz por meio da posse, das coisas elaboradas pela mão e pela mente do homem. (…) (Idem, pág. 92)

Queremos nos distrair, divertir-nos, fugir de nós mesmos, tal a nossa miséria e pobreza interior, a nossa vacuidade e tristeza. E, desse modo, onde há procura, há produção e a tirania da máquina. No entanto, julgamos poder solucionar o problema econômico e social com a simples industrialização (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 92)

Podeis fazê-lo temporariamente, mas com isso surgem as guerras, as revoluções, a opressão e a exploração, conduzindo a chamada civilização - a industrialização e tudo que ela implica - a um estado de barbárie. (…) Para o indivíduo rico interiormente, a industrialização tem seu devido significado. (…) (Idem, pág. 92-93)

http://2.bp.blogspot.com/-BjA6ceAPM7A/TV3kNSRJDNI/AAAAAAAABCY/aOHWnlKWfrI/s1600/2004%2Bbanksy_christ.jpgSem o poder equilibrante da compaixão e da espiritualidade, teremos, com o simples aumento da produção de coisas, o aperfeiçoamento de obras e de técnica, guerras de maiores proporções e mais bem organizadas, opressão econômica e fronteiras poderosas, bem como formas mais sutis de ludibriar, desunir e tiranizar. (Idem, pág. 93)

Senhor, este é o “nosso mundo”. Não é um mundo comunista, nem um mundo capitalista, mas um mundo nosso, para nele vivermos (…) e sermos felizes. (…) Mas quando existe o sentimento de que esta é a nossa Terra, não haverá então empregador e empregado, não haverá o sentimento de que um é o “patrão” e outro, “o empregado”. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 61)

(…) O homem de negócios pergunta: “que posso fazer?” Se ele tiver aquele sentimento, poderá fazer centenas de coisas; poderá fazer ricos os pobres, dando-lhes participação no negócio, tornando o seu negócio uma sociedade cooperativa. (…) (Idem, pág. 62)

Penso ser este o problema real (…) Temos agora as máquinas e as técnicas que permitem produzir tudo de que necessita o homem, e em breve, provavelmente, teremos uma distribuição equitativa dos recursos para a satisfação das necessidades físicas, e a cessação da luta de classes; mas o problema básico continuará existente. O problema básico é que o homem não é criador, não descobriu por si mesmo a extraordinária fonte de criação, não inventada pela mente; e só quando se descobre essa fonte criadora, atemporal, é que se encontra a suprema felicidade. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 55)

Estão-se verificando importantes mudanças no mundo, no campo científico e no campo da medicina. Temos o computador, a automação, que irão proporcionar ao homem muito lazer. Ainda não chegou talvez a hora de fruirmos esse lazer, mas está por chegar. O homem vai ter liberdade e lazer em abundância, para fazer o que quiser. A família, as relações entre marido e mulher - tudo vai ser revolucionado. Na hora atual, ocorre uma extraordinária mudança no mundo, no terreno econômico, social, científico, médico. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 111)

(…) Porque, no final de tudo, o mundo tenderá mais e mais e mais no sentido da federação e não do constante fracionamento. (…) Nessas condições, o que cada um de nós pode fazer é abandonar o comunalismo: podemos deixar de ser brahmanes, (…) de pertencer a qualquer casta ou a qualquer nação. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 6)

Posso expor os princípios básicos, (…) mas não tem valor algum. O que tem valor é vós e eu descobrirmos juntos os princípios básicos sobre os quais se deveria edificar uma sociedade nova; porque no momento em que descobrirmos, conjuntamente, (…) existirá uma nova base de relações entre nós. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 154)

Já não serei o instrutor e vós o discípulo, ou vós o auditório e eu o conferencista (…) Significará isso ausência de autoridade (…) Seremos parceiros no descobrimento e, por conseguinte, estaremos em cooperação; (…) (Idem, pág. 154)

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Enquanto houver autoridade nas relações entre pessoas, haverá compulsão; e pela compulsão nada se pode criar. Um governo que compele, um instrutor que compele, um ambiente que compele, não cria relações, mas apenas um estado de escravidão. (Idem, pág. 154)

(…) Quando não existe domínio, autoridade, compulsão, que significa isso? Significa, é claro, que há afeição, que há ternura, que há amor, que há compreensão. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 155)

É muito importante que cada um de nós descubra qual é a sua relação com a sociedade, se ela está baseada na ganância - que significa auto-expansão , preenchimento do “eu”, que supõe poder, posição, autoridade - ou se simplesmente aceitamos da sociedade as coisas essenciais, tais como alimentação, roupa e moradia. (…) (A Arte da Libertação, pág. 173)

(…) Como a atual sociedade se está desintegrando rapidamente, precisamos descobrir; e aqueles cuja relação é só de necessidade, criarão uma nova civilização, constituirão o núcleo de uma sociedade na qual as coisas necessárias à vida serão distribuídas equitativamente, e não utilizadas como meio de auto-expansão. (…) (Idem, pág. 174)

Considerando-se o mundo - não só o que se passa neste país, na Ásia, mas também na Rússia, onde estão ocorrendo grandes mudanças (…) - considerando-se tudo isso, não podemos deixar de perguntar-nos se a nova semente já estará a germinar, se já estará a nascer uma nova cultura, uma nova sociedade, uma mente nova, não moldada pelo velho padrão, (…) isenta das infantilidades que hoje praticamos. (…) (A Importância da Transformação, pág. 103)

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O desafio é imenso; temos de enfrentá-lo (…) com a compreensão de todo este mundo humano - de guerras, fome, nações subdesenvolvidas, superpovoamento, o luxo dos ricos e o sofrimento dos pobres, etc., etc. (…) Se pudermos observá-lo totalmente, (…) penso que encontraremos então a resposta - a qual pode não corresponder a nosso gosto, pode não ser a que desejamos. (…) (Idem, pág. 104)

(…) Digo-vos, porém, que não podeis resolver esses problemas separadamente; não podeis resolver o problema religioso isoladamente, nem o econômico, nem tampouco o social, mas fá-lo-eis verificando a relação de interdependência que entre si têm os problemas religioso, social e econômico. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 5)

(…) Enquanto não tratarmos dos problemas social, religioso e econômico como um todo compreensivo e não dividido, percebendo antes a delicada e sutil conexão (…), não o podereis resolver, apenas aumentareis a luta. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 6)

Pergunta: Por que não alimentais os pobres, em vez de falar?

Krishnamurti: Agora, o interrogante quer saber por que falo. (…) Para que os pobres sejam alimentados, necessita-se uma revolução completa; não uma revolução superficial, da esquerda ou da direita, mas uma revolução radical; (…) Uma revolução baseada em idéia não é revolução; pois qualquer idéia é mera reação a determinado condicionamento, (…) não pode produzir modificação fundamental. (…) (Que Estamos Buscando, pág. 29-30)

Só quando vós e eu estivermos livres de idéias, poderemos produzir uma revolução radical, interiormente, e, portanto, exteriormente. Não se trata de ricos nem de pobres. O que há é a dignidade humana, o direito de trabalhar (…) Não há, então, ninguém que tenha demais, para dar de comer aos que tenham de menos. Não há diferenças de classes. (…) (Idem, pág.30)

Será uma realidade, quando houver aquela radical revolução interior. (…) Uma transformação fundamental dentro de cada um de nós. Não haverá então nem classes, nem nacionalidades, nem guerras, nem separatismo destrutivo; e isso só poderá verificar-se quando houver amor em vosso coração. (…) (Idem, pág. 31)

A unidade humana só pode encontrar-se no amor, no esclarecimento que nos traz a verdade. Essa unidade do homem não pode estabelecer-se mediante simples ajustamento econômico e social. (…) Esperamos que uma revolução externa, uma reforma exterior dos valores, transformem o homem.

Embora, sem dúvida, essas coisas produzam certos efeitos no homem, a sua vontade aquisitiva (…) continua a existir. Essa atividade aquisitiva, infinita e vã, não pode em tempo algum trazer a paz ao homem, e é só quando o indivíduo está livre dela, que pode haver o estado criador. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 168)

Crédito das Imagens: Banksy 

12 de nov de 2011

Profecias e suas Consequências


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O ser humano há muito convive com profecias, fins de mundo e outros fatos que visam apenas amedrontar e subjugar a mente. Criou-se uma forma-pensamento forte que constantemente é alimentada. Será que alguma profecia tem fundamento? Profetas existem? Se sim, como distinguir o verdadeiro do falso? As profecias do passado e do presente. Quais as reais consequências da proliferação desse tipo de notícia? Acontecerá algo em 21 de Dezembro de 2012? O que significa o calendário maia findar-se nesta data?




 

4 de nov de 2011

Os Simulacros Nada Têm a Esconder

 
 Um post de CINEGNOSE (Acesse) - Autor: Wilson Roberto Vieira Ferreira


Sucesso de público e de crítica, as palavras “simulacro” e “simulação” foram a parte mais mal compreendida do pensamento de Jean Baudrillard. Ele jamais procurou encontrar a “realidade” ou a “verdade” por trás das ilusões do mundo como faz a crítica ideológica tradicional. Seu projeto era de um ceticismo mais radical: denunciar os discursos que afirmam dizer sobre alguma coisa, mas que, na verdade, apenas escondem que nada têm a esconder, seja na Política, Economia ou na Mídia.


Simulacro e simulação tornaram-se os mais conhecidos conceitos dentro do pensamento de Baudrillard, chegando até ao mainstream hollywoodiano na célebre passagem do filme Matrix (1999) onde o protagonista, Neo, esconde programas piratas dentro de um livro oco cuja capa é do célebre livro “Simulacros e Simulações”. Talvez o sucesso de público desses conceitos se deva menos à compreensão dentro da teoria não materialista da linguagem defendida pelo autor e, muito mais, pela sua tradução feita pelo tradicional discurso da crítica da ideologia como falsa consciência. Muitos autores ignoram a idéia da simulação original, preferindo interpretar a bem conhecida três ordens do simulacro através de uma leitura ortodoxa como abaixo:
“Baudrillard argumenta que há três níveis na simulação, onde o primeiro nível é uma óbvia cópia da realidade e o segundo nível uma cópia tão boa que suspende as fronteiras entre realidade e representação. O terceiro nível é a da produção da realidade sem se basear em qualquer elemento do mundo real. O melhor exemplo é provavelmente a ‘realidade virtual’ onde um mundo é gerado por meio de linguagens ou códigos.”[1]
É como se, no início existisse a realidade e o signo que fizesse sua cópia por meio da representação.  A partir daí é como se a espiral dos simulacros e da simulação se apossasse dos signos, corrompendo-os, instaurando uma representação ideológica do mundo. O simulacro e a simulação, além de serem tomados como sinônimos, passam a ser interpretados como uma disjunção entre forma e conteúdo, infraestrutura e superestrutura. Ou seja, estes conceitos são aprisionados dentro da crítica da dissimulação, da manipulação,  da mentira, da denúncia contra todas as formas de falsa consciência.

Porém, como vimos até aqui, não existe uma teoria da representação em Baudrillard. Portanto, não há propriamente uma crítica ideológica, pelo menos não no sentido de crítica à falsa consciência.
“A ideologia é, de fato, todo o processo de redução e abstração do material simbólico numa forma – mas esta abstração redutora dá-se imediatamente como valor (autônomo), como conteúdo (transcendente), como representação de consciência (significado)”[2]
A crítica ideológica tradicional encontra-se no paradigma da dissimulação: denunciar que por trás do discurso que esconde existe algo real. Há algo para ser escondido. Ao contrário, a crítica ideológica baudrillardiana está no campo da simulação: denunciar os discursos que afirmam dizer sobre alguma coisa, mas que, na verdade, apenas escondem que nada têm a esconder. A simulação está nas próprias origens da linguagem, na sua própria abstração redutora da dimensão simbólica, negando a transitividade sujeito/objeto e instaurando a precessão do modelo e da binariedade do código.

O Duplo Sentido da Simulação

Os simulacros religiosos: a imagem é
reflexo de uma realidade profunda
Segundo Baudrillard a simulação, embora esteja a serviço do aniquilamento da dimensão simbólica e a favor da ordem do signo nos sistemas, testemunha a própria ilusão do signo e da representação. A representação tenta absorver a simulação ao rotulá-la como falsa representação, mas encobre o fato de que a simulação envolve todo o edifício da representação como um simulacro.

Para compreender este duplo sentido da simulação (estar a serviço da reprodução dos sistemas e, simultaneamente, testemunhar a miragem da representação) precisamos entender a sutil diferença entre simulacro e simulação. Simulação tem a ver com a sedução original do mundo e da própria linguagem. É o pressuposto Maniqueísta gnóstico de Baudrillard da luta e reversibilidade entre o Bem e o Mal. Já o simulacro envolve as diferentes maneiras ou fases dessa simulação se manifestar no transcorrer da história.


“Seriam essas as fases sucessivas das imagens que conduzem à formação dos simulacros: 
- ela [a imagem] é o reflexo de uma realidade profunda  
- ela mascara e deforma uma realidade profunda
- ela mascara a ausência de realidade profunda
- ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro”[3]
Na primeira fase temos o simulacro como boa aparência: a certeza de que um signo possa remeter para a profundidade do sentido, o partido da representação. Existe uma suposta equivalência do signo e do real. Alguma coisa serve de caução para essa troca: Deus, Realidade, Valor de Uso, etc. O realismo de uma fotografia baseia-se na certeza da troca entre a foto e a pessoa fotografada. O Real é a sua caução. Da mesma forma, se temos uma nota de um real (um signo monetário) sabemos que ela é verdadeira por possuir uma equivalência correspondente ao seu valor no Banco Central. O valor econômico é a caução.

A segunda fase corresponde ao simulacro como falsa aparência ou ao sortilégio. Ainda dentro do regime da representação, é o momento em que o signo dissimula, mente ou deforma uma realidade profunda. Uma fotografia pode ser manipulada através de processos de retocagem seja analógica ou digital. Uma nota de um real pode ser falsa. Nestes casos, pressupõem-se existir ainda uma realidade a qual se renuncia ao produzir uma falsa aparência. É como se ocorresse uma clivagem entre o signo e a realidade. Mas ainda existe a oportunidade de desmascarar esta mentira e revelar-se o segredo.

A terceira fase é a do simulacro como ilusão de aparência. O signo simula ter algum referencial ou estar ancorado em um objeto real quando, na verdade, tudo não passa de um blefe. Sua aparência é a da representação, mas nada consegue do que remeter-se a si mesmo. Não há profundidade, mas apenas um discurso metonímico: signos que espelham outros signos, cópias de cópias que se refletem mutuamente. A fotografia não consegue mais capturar o real a partir do momento em que a pessoa sabe que ali está a câmera e posa para ela, simulando personas ou atitudes. Quem representa o quê? O dispositivo fotográfico representa a pessoa diante dela ou aquela espelha a presença do próprio dispositivo? Ao mesmo tempo, qual a diferença entre uma nota de um real falsa e verdadeira em uma ordem econômica onde a riqueza não é mais produzida a partir da atividade produtiva, mas a partir de papéis ou títulos artificialmente valorizados em bolhas especulativas nas bolsas de valores e falcatruas contábeis em empresas? A nota falsa remete à nostalgia de um referente que não existe mais nas notas verdadeiras, e as notas verdadeiras remetem-se às falsas para afirmar, de forma negativa, a sua “realidade”.

A quarta fase é a do simulacro como pura aparência. Fase decisiva para Baudrillard por ser uma fase terminal a qual se refere como o “assassinato do real”, “o crime perfeito” ou à “greve dos acontecimentos”: é o regime dos simulacros puros, o momento em que a própria realidade é substituída pela sua contrafação, o simulacro substitui o real criando a hiper-realidade. Se na fase anterior o simulacro blefava (ou simulava), ou seja, ainda havia no horizonte a nostalgia de um referente real a que ele queria se assemelhar, agora o mundo torna-se cada vez mais parecido com modelos artificialmente produzidos, como os parques temáticos, por exemplo. De tanto o indivíduo posar para a câmera simulando atitudes ou personas cujos modelos vêm da mídia, tais modelos acabariam confundindo-se com a própria personalidade criando uma situação onde se esquece onde termina a realidade e começa a ficção, o Eu e o não-Eu. Distinção ociosa para o indivíduo que não se importa mais com isso: inconsciente ou imaginário são substituídos pela “brancura total” do modelo[4]

Ou, então, na infogenética onde o modelo algorítmico ameaça substituir o próprio processo evolutivo. O DNA humano poderá ser sequencializado para, a partir daí, criarem-se matrizes supostamente perfeitas para gerarem cópias ou clones. A replicação substituirá a evolução. O modelo que precede o real não necessita mais do antigo horizonte referencial para a simulação. Roga-se como o único princípio de realidade, sem mais o intercâmbio entre real e imaginário. Transparência absoluta: o simbólico e o imaginário são absorvidos pelo modelo e o seu código.

O “assassinato do real”

Guerra do Golfo (1992): o "não acontecimento"
Para demonstrar esta fase terminal do “assassinato do real” Baudrillard nos oferece os casos da cobertura televisiva da Revolução Romena em 1989 e da Guerra do Golfo em 1992 fatos que, para ele, se inscrevem no regime do virtual, dos “não acontecimentos”. Durante a cobertura televisão da revolução romena contra a ditadura de Ceausescu mostraram-se imagens da suposta descoberta de um ossário de mais de quatro mil vítimas da ditadura. Outros corpos teriam sido dissolvidos em ácido. O total de mortos chegaria a 60.000 ou 70.000. Tudo era uma encenação: os cadáveres em lençóis brancos não eram das vítimas dos massacres de 17 de dezembro de 1989, mas mortos desenterrados do cemitério dos pobres, oferecidos à necrofilia da TV.
“Desde logo, o próprio contágio das imagens, que se autoproduzem sem referência a um real ou a um imaginário, é virtualmente sem limite, e esse engendrar-se sem limite produz a informação como catástrofe”[5]
A mídia alimenta-se pela presunção da catástrofe. Esta natureza da informação midiática intoxica o próprio real que é como que adaptado às exigências televisivas. O objeto é aniquilado pela própria informação. Os fatos reais para tornarem-se “midiáticos”, “fotogênicos” ou “televisivos” são, na sua origem, simulações para aproximar-se daquela presunção da catástrofe e, portanto, atrair a atenção da mídia. Isso se distingue da pura dissimulação ou manipulação do real (o que corresponderia à segunda fase da imagem descrita acima). O próprio real se engendra como simulação como fosse um gigantesco prolongamento do estúdio da TV.
“Evidentemente, a partir do momento onde o estúdio torna-se a central revolucionária e a tela o único lugar de aparição, todo mundo acorre ao estúdio para figurar a todo custo na tela, ou ainda, se reagrupa de preferência na rua sob a mira das câmeras, que aliás filmam-se umas as outras. A rua inteira torna-se um prolongamento do estúdio, isto é, um prolongamento do não-lugar do acontecimento, do lugar virtual do acontecimento. A rua torna-se também um espaço virtual.”[6]
A Guerra do Golfo enquadrar-se-ia também neste não-lugar do acontecimento. Para além de toda racionalidade estratégica e militar, mesmo sabendo da derrota certa, Sadam Hussein declara guerra aos EUA invadindo o Kuait. Os motivos da deflagração da guerra nunca saíram do campo da especulação, mas, como primeira guerra transmitida ao vivo na história da mídia, Sadam sabia que o seu gesto via CNN se espalharia pelas redes de comunicação, tornando-se o novo líder da causa árabe. Do lado americano, a guerra foi propositalmente prorrogada pelo Pentágono, na medida em que os índices de audiência da CNN elevavam-se conjuntamente com a comoção da opinião pública e, mais importante, era ano eleitoral e George Bush buscava sua reeleição. É a auto-referência mortífera da informação: no final a mídia transmite um fato que ela própria criou. Auto-circularidade absoluta. Esta é a lição de Baudrillard: “a mais alta pressão da informação corresponde à mais baixa pressão do acontecimento e do real.”[7]

Neste cenário pós-moderno descrito por Baudrillard, os fatos não podem simplesmente acontecerem. Para efetivamente existirem devem ser “midiáticos” ou “televisivos” para transmutarem-se em imagem. Perdem a espontaneidade dos fatos históricos assim como um indivíduo cria um simulacro de si mesmo ao saber que está sendo filmado por uma câmera. Este é o momento da criação do simulacro: o signo passa a ser mais importante do que aquilo que ele representa. Mais do que existir os fatos devem tornar-se imagem para efetivamente acontecerem.

Segundo Baudrillard esta inversão na função semiótica dos signos está presente em três dimensões simultâneas criando a hegemonia dos simulacros no mundo contemporâneo:
“1) O capital se transcende e volta-se contra si mesmo no sacrifício do valor (ilusão econômica). Por assim dizer, ele salta por cima da própria sombra. 
2) O poder volta-se contra ele mesmo no sacrifício da representação (a ilusão democrática). 
3) O sistema inteiro volta-se contra ele mesmo no sacrifício da realidade (a ilusão metafísica)”[8]
A virtualização do capital através
da financeirização
Na primeira dimensão (a econômica) a produção de riqueza pelo capital se virtualiza com o fenômeno da financeirização no mundo econômico globalizado. A extrema liquidez dos fluxos financeiros permite uma produção de riqueza baseada pura e tão somente na especulação de títulos e papéis, sem mais nenhuma referência na produção real de valor a partir do trabalho humano. Signos financeiros tornam-se verdadeiras bolhas especulativas valorizadas por meio de notícias (sejam elas boatos, rumores ou informações oficiais) criadas para as mídias repercutirem. Da noite para o dia, empresas têm suas ações valorizadas produzindo enormes bonificações por meio de notícias habilmente plantadas no noticiário econômico para, mais tarde, serem desmentidas pelas mesmas fontes.  No espaço de tempo entre a divulgação e o desmentido, muita riqueza virtual acabou sendo produzida nas complexas transações financeiras. O valor-trabalho é substituído pelo valor-signo ou, por ser um signo sem possuir referência com a realidade, valor-simulacro.  

Mesmo indo para além do plano da circulação financeira do capital, ou seja, indo para o plano da produção real de bens e serviços, mesmo aí está presente o valor-simulacro. As inovações estéticas das mercadorias (design, embalagem, conceito de marca etc.) criadas e divulgadas pela publicidade e marketing produzem mais valor ao capital do que inovações propriamente concretas referentes ao valor de uso do próprio produto (inovação tecnológica, redução de preço, etc.). No final, consome-se não mais o produto mais o seu signo. Por isso temos uma verdadeira inversão metafísica: é mais caro dizer ao mercado que o produto existe do que fazê-lo efetivamente existir. A aparência antecede a essência, o efeito é anterior à causa.

O Terrorismo e a crise da Política

Na segunda dimensão (a política), o poder volta-se contra ele mesmo na sua espetacularização midiática. 

Uma estranha deflação começa a atingir a política, principalmente porque o seu objeto principal, o Poder, entra num acelerado processo de esvaziamento simbólico. Há algo de peculiar no comportamento do Poder nos tempos atuais: a necessidade de tornar‑se visível para a mídia, de chamar todos à participação. Para Baudrillard, há algo de irônico no Poder atual: se no passado essa apatia das massas seria positiva para a gerência tranqüila­ da política pelas classes dominantes, hoje ela é perigosa, pois pode denunciar a sua própria inutilidade:
“Durante muito tempo a estratégia do poder pôde parecer se basear na apatia das massas. Quanto mais elas eram passivas, mais ele estava seguro. Mas essa lógica só é característica da fase burocrática e centralista do poder. E é ela que hoje se volta contra ele: a inércia que se fomentou tomou‑o sigilo de sua própria morte. É por isso que o poder procura inverter as estratégias: da passividade à participação, do silêncio à palavra. Mas é muito tarde. O limite da “massa crítica”, o da involução do social por inércia, foi transposto. Em toda parte se procura fazer as massas falarem, se as pressiona (sic) a existir de forma social eleitoralmente, sindicalmente, sexualmente, na participação, nas festas, na livre expressão, etc.”[9]
Através da mídia a política simula-se a si mesma (a ilusão democrática, a simulação da vontade política, da representatividade do voto – o signo político) encobrindo uma única realidade: a morte do Poder.

O terrorismo é o sinalizador da crise do Poder
O terrorismo internacional e as formas de violência não‑anômicas são o primeiros sinalizadores desta crise do poder. O terrorismo recusa o sentido do poder. Ele é imediatamente destinado às ondas concêntricas dos meios de comunicação. A morte de um presidente ou o assassinato de um líder pacifista não conduz à queda de um regime ou de um sistema político. Seus autores sabem disso. Facções terroristas não visam, muito menos, à conscientização nem a uma representação ideológica. Seu único objetivo é marcar um lugar na mídia pela fascinação e pelo pânico. Pichações, violência de gangues e greves perdem sua natureza anômica (desestabilizar a ordem, contestar o poder, etc.), para adquirirem um alcance minimalista.
“É conhecido o fato, por exemplo, de algumas pessoas, reunidas para um protesto, numa demonstração ou manifestação política, estarem totalmente desorganizadas, difusas, dispersas até o momento em que lá aparecem as câmaras de tevê. No momento em que são acionados esses aparelhos, organiza‑se a passeata como se tivesse sido detonada pela claquete da filmagem e todo mundo sai pela rua representando a passeata. A televisão capta as imagens e, no momento em que as câmeras vão embora, as pessoas também se dispersam”[10].
O campo de enquadramento da câmara passa a ser o novo tempo forte do social em torno do qual os agentes sociais gravitam, inclusive o próprio Poder.
Além disso, o Poder dilui-se na própria diminuição do papel do Estado e seus governantes com a globalização. Os complexos fluxos financeiros em tempo real no planeta e a hegemonia dos interesses das empresas transnacionais superam em muito o alcance institucional dos Estados-Nação. O Estado passa apenas a homologar ou facilitar por meios legislativos e jurídicos as decisões supranacionais. Resta ao Poder gerenciar crises e demandas. Por isso, ele começa a abandonar os discursos ideológicos para incursar no pragmatismo. Seja de qual partido ou ideologia for, seu governante deverá dar respostas imediatas à crise, gerir o endividamento e as demandas não atendidas. Não é à toa que, cada vez mais, o parlamento e a representação política perdem força diante da centralização do poder no executivo. 

Com o esvaziamento do poder de decisão o Poder e a Política temem o seu esvaziamento simbólico. Por isso, precisam simular para a mídia que ainda têm um poder real. De que o voto e a democracia são ainda signos de representatividade. Se outrora o poder dissimulava sua essência (a dominação, a manipulação, as tramas, etc.), hoje corre atrás da mídia para simular que ainda possui um sentido, que ainda detém um tempo forte para o social. É o surgimento do “Estado­-espetáculo”. 

Que o poder sempre teve um caráter cênico‑teatral não é novidade desde Maquiavel. Porém, a novidade atual é que a encenação se desloca do campo da dissimulação para o da simulação. Precisa produzir fatos, programas, expor a vida privada de políticos e autoridades, criar choques econômicos, dar amplitude midiática às intrigas palacianas, isto é, munir os meios de comunicação de simulacros da sua realidade.

O Sacrifício da Realidade

Na terceira dimensão (a metafísica) está o sacrifício da realidade, ou seja, a consolidação de uma cultura neoplatônica caracterizada pelo primado do virtual e da simulação sobre a realidade. E a espinha dorsal deste neoplatonismo está na própria natureza da tecnologia digital. Diferente dos avanços tecnológicos anteriores (como a tipográfica, por exemplo) onde ocorreram verdadeiras revoluções com a criação de novas mídias, paradigmas e culturas, a tecnologia digital resume-se a digitalizar mídias já existentes no mundo analógico. 

Em outras palavras, apenas transpõem para ambientes ou interfaces digitais mídias, sons e imagens que já eram manipuladas no mundo analógico. Apenas com uma diferença: a infinita possibilidade de interferir na representação até transformá-la em signo vazio de referência. Chats ou salas de bata-papo na Internet substituem os contatos face-a-face, mas com um acréscimo: a possibilidade de o indivíduo simular diversas personas a cada contato virtual, eliminando qualquer rastro de alteridade ou ruído proveniente das relações humanas concretas (timidez, ansiedade, etc.). 

A manipulação completa das imagens digitais nega a própria alteridade do tempo como o envelhecimento físico. O crescimento vertiginoso das cirurgias plásticas significa o sacrifício do corpo real em nome do simulacro digital eternamente renovado pelo Photoshop. É o que Baudrillard refere-se como o “êxtase da comunicação”. O domínio destas verdadeiras próteses digitais de comunicação como telefones celulares, e-mails, voice-mail, faxes, pagers e palm pilots fazem o indivíduo estar continuamente plugado na rede de informação global. Isto cria uma descontinuidade temporal entre o mundo on line em tempo-real das redes com o velho mundo cronológico do dia-a-dia corporal. Esta descontinuidade cria verdadeiras desordens psicológicas como a “tele-pressão” onde o tempo virtual que, de tão acelerado, entra em choque com a cronologia temporal. O resultado é o sacrifício da cronologia da realidade (o envelhecimento, a reflexão, a maturação etc.) pela aparente perfeição das próteses digitais.

NOTAS


[1] LANE, Richard. Jean Baudrillard. London: Routledge, 2.000, p. 30.
[2] BAUDRILLARD, Jean. Para Uma Crítica da Economia Política do Signo. Lisboa: Martins Fontes, s.d., p. 180-181.
[3] Idem. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d’Água, 1991, p.13.
[4] Veja, por exemplo, as terapias de fundo cognitivo e comportamental, além de toda literatura de auto-ajuda, que prometem a transparência total do Eu por meio da eliminação dos “ruídos” provenientes do inconsciente ou dos traumas do passado.
[5] BAUDRILLARD, Jean, “Televisão/Revolução: o Caso Romênia”, In: PARENTE, André (org) Imagem Máquina, Rio de Janeiro, Editora 34, p. 147.
[6] Idem, Ibid., p.148-9.
[7] Idem, Ibid., p. 149.
[8] BAUDRILLARD, Jean, “O Poder Canibal” IN: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 15/05/2005, p.7
[9] BAUDRILLARD, Jean. À Sombra das Maiorias Silenciosas. São Paulo, Brasiliense, 1985. p.24.
[10] MARCONDES Filho, Ciro. Sociedade Técnológica. S. Paulo, Scipione, 1995. p.68.

Post integral acesse:

O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard (parte 1)

O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard (parte 2): os simulacros nada têm a esconder

O ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard (parte 3): a "Pura Aparência" em "Show de Truman"

 

Homem Novo: Arquitetos, Agentes das Mudanças



Eis por que tanto importa, enquanto estais jovens, que não vos deixeis condicionar. (…) Os homens que investigam o que é a Verdade, o que é Deus - só esses homens podem criar uma nova civilização, uma nova cultura, e não aqueles que se submetem ou se revoltam apenas dentro da prisão do velho condicionamento.

Podeis pôr as vestes de um asceta (…); mas, se não houver dentro de vós aquele movimento para descobrir o que é real, (…) a Verdade, vossos esforços serão sem significação. Podeis ser muito ilustrados (…), mas tudo isso está dentro da prisão da tradição (…), não tem nenhum valor revolucionário. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 89)

Por homem civilizado não entendo aquele que conseguiu dominar o mecanismo da vida moderna. Civilização é o resultado de uma cultura (…), distinta da percepção individual da Verdade. (A Finalidade da Vida, pág. 20)

Um homem civilizado, antes de tudo, não deve pedir a outros coisa alguma para si mesmo, e não deve necessitar de nada para si próprio. É esse o principal requisito, do meu ponto de vista. (…) (Idem, pág. 20)

Pois bem: se esse homem não precisa pedir coisa alguma a outrem, significa isso que ele é um modelo para si mesmo, que é a sua própria luz - e, assim, não projetará sombras no caminho de outrem. (…) (Idem, pág. 20)

Não o limita o temor da autoridade externa, o temor de um deus desconhecido, não o limitam as superstições e tradições, porque, no instante em que ele depender de alguém ou de algo, a sua percepção da Verdade se atenuará. (Idem, pág. 20-21)

Também é necessário que ele seja dominado pela intuição, que é o ponto culminante da inteligência. (…) E se desejais despertar essa intuição (…) deveis manter a vossa inteligência entusiasticamente desperta. (A Finalidade da Vida, pág. 21)

E deve, ainda, o homem civilizado, (…) culto, ser tolerante, capaz de examinar qualquer assunto imparcialmente, livre de preconceitos e influências, (…) capaz de um exame crítico de toda coisa nova, antes de a rejeitar ou aceitar. (…) (Idem, pág. 21)

Esse homem chegou realmente ao alvo (…) embebeu realmente o seu coração nas águas da vida. (…) E esse estado só pode alcançar-se quando o alvo é o árbitro definitivo, a autoridade decisiva. (…) (Idem, pág. 21-22)

Esse homem é simples, (…) é puro. Ele é lúcido e calmo (…) esse homem preencheu a vida, porque deixou a vida pintar o quadro que desejava e não foi ele quem, com sua estreiteza, (…)suas limitações, deturpou e corrompeu a vida. (A Finalidade da Vida, pág. 22)

(…) E quando houverdes compreendido esse caminho, (…) realizado essa união, o tempo e todas as suas complicações deixarão de existir. (…) (Idem, pág. 22)

Sereis então vosso próprio Senhor, vosso próprio Deus, vossa própria Luz. E, uma vez realizado isso, todas as outras coisas serão secundárias, (…) desnecessárias. (Idem, pág. 22)

(…) São precisos novos arquitetos, novos construtores, para criar uma sociedade nova. A estrutura tem de ser edificada sobre alicerces novos, sobre fatos e valores novos, que cumpre descobrir. Esses arquitetos não existem ainda. (…) Tal é o nosso problema. Vemos que a sociedade está ruindo e se desintegrando, e somos nós - vós e eu - que temos de ser os arquitetos. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 3ª ed., pág. 36) (1ª ed., pág. 37)

Se o reformador (…) Quem quer reformar o mundo, deve primeiramente compreender-se a si mesmo, porquanto o mundo é ele. As atuais tribulações e degradações do homem são acarretadas pelo próprio homem; e, se ele pretender reformar apenas o padrão do conflito, sem compreender-se fundamentalmente a si próprio, concorrerá somente para aumentar a ignorância e o sofrimento. Se cada indivíduo procurar o valor eterno, chegará então o fim do conflito interior e descerá a paz sobre a terra. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 114-115)

Se desejais pôr termo ao conflito, à confusão e às tribulações que se vos deparam (…), de onde deveis partir? Do mundo, do exterior (…)? Ou deveis partir de vós mesmos, a fim de eliminardes radicalmente as causas responsáveis por todos os conflitos e sofrimentos? Se fordes capazes de desvencilhar-vos da paixão e da mundanidade, em que se baseia a atual civilização, descobrireis e compreendereis o valor eterno, esse valor que não se ajusta a molde algum. Sereis, então, quiçá, capazes de ajudar a outros. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 114-115)

Nosso primeiro dever, por conseqüência, é descobrirmos o Real, porque somente ele nos dará paz e felicidade. Só nele pode cessar o conflito e a aflição; só nele se encontra a potência criadora. Sem esse tesouro interior, pouca importância tem a organização das condições externas, por meio de legislação e (…) planos econômicos. Com a percepção do Real, deixam de estar separados o “exterior” e o “interior”. (Idem, pág. 116)

(…) Conhecemos a fuga intelectual: racionalização, mais e mais planos engenhosos, técnica e mais técnica, mais e mais reações econômicas à vida, todas muito sutis e intelectuais. E há a fuga pela via do misticismo, dos livros sagrados, da adoração de uma idéia estabelecida. Ora, tanto o intelectual como o místico são produtos da mente. O intelectual pode ter a capacidade de falar, de expressar-se com mais clareza, mas também ele se recolhe nas suas idéias e ali vive muito tranqüilo, indiferente à sociedade, acalentando suas ilusões, nascidas da mente. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 193-194)
(…) Somos nós, vós e eu, a gente comum, que temos de resolver este problema, sem sermos intelectuais nem místicos, sem escaparmos pela racionalização nem por meio de termos vagos e de hipnose por palavras e métodos que são autoprojeções nossas. O que sois, o mundo é, e se não compreendeis a vós mesmos, o que criardes aumentará sempre a confusão e o sofrimento; (…) (Idem, pág. 194)

(…) Ao falarmos em revolução, temos em vista a estrutura psicológica da sociedade em que nos vemos aprisionados (…) Há necessidade de pelo menos uns poucos indivíduos, não um grupo organizado em torno de um dogma, uma crença ou um líder - indivíduos firmemente cônscios da própria psique e da sociedade, e cônscios, também, da necessidade de uma revolução total, interior, para que não continuemos a viver neste estado de violência, de ódio, de antagonismo, de mera busca de prazeres e entretenimentos. (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 46-47)

Ora, (…) As revoluções fundamentais são produzidas pela massa, ou são elas iniciadas por uns poucos indivíduos de visão que, por seu verbo e sua energia, influenciam grande número de pessoas? É assim que nascem as revoluções. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 89)

Afinal, a massa é uma entidade constituída de pessoas que estão enredadas, hipnotizadas por palavras, por certas idéias. (…) Não deveríamos manter-nos à margem da corrente e tirar dela outros indivíduos, em número crescente, para, dessa maneira, influir na corrente? (…) (Idem, pág. 90)

Não é muito importante que se realize uma transformação fundamental no indivíduo, em primeiro lugar, (…) em vez de esperar que todo o mundo se transforme? Não é um ponto de vista “escapista” (…) pensar que vós e eu não sejamos capazes de influir, por pouco que seja, na sociedade como um todo? (Idem, pág. 90)

Antes de agir, precisamos saber pensar. (…) Só quando vós e eu descobrirmos a maneira de pensar corretamente, estaremos aptos a resolver os formidáveis problemas que nos desafiam. (Idem, pág. 13)
Ora, como começar a pensar corretamente? Precisais conhecer-vos a vós mesmos, não achais? (…) Vós que sois diferente do mundo; o problema do mundo é vosso problema, e o vosso “processo” individual é o “processo” total do mundo. (…) (Idem, pág. 13)

O que tem importância (…) Vemos o que está acontecendo no mundo - o crescente conflito da destruição, da miséria. Esse conflito vós não podeis sustar; o que podeis fazer é alterar a vossa relação com o mundo (…) o mundo de vossa esposa, vosso marido, vosso emprego, vosso lar. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 52)

Nesse mundo podeis operar uma transformação, e essa transformação se espalhará em círculos cada vez mais amplos; (…) Mas, se compreendemos o conflito da existência de cada dia, podemos passar além, porque nisso se encerra todo o significado da vida. A mente em conflito é destrutiva, desperdiçada. (…) (Idem, pág. 52)

(…) Todos os intelectuais que se têm ocupado com esses problemas e tentado mostrar-nos o caminho, têm falhado. Os intelectuais falharam, suas fórmulas são impraticáveis. (…) O que nos interessa, pois, é a ação, (…) o descobrimento de uma nova maneira de encarar esses problemas. Já vimos que, se os encararmos de acordo com as velhas e habituais diretrizes, não conseguimos nenhuma modificação fundamental. (…) (A Arte da Libertação, pág. 12)

(…) É bem óbvio que não podemos ficar à espera de alguém, guru ou guia, que venha resolver nossas dificuldades. Isso é infantil, é um modo imaturo de pensar. A responsabilidade é vossa e minha; e, uma vez que falharam os chefes e os guias (…) que nenhuma significação têm as fórmulas e os sistemas, não podemos ficar sentados como expectadores, à espera de que nos digam o que fazer. (…) (Idem, pág. 12-13)

Antes de agir, precisamos saber pensar. Não há ação sem pensamento. A maioria de nós, porém, age sem pensar, e o agir sem pensar nos trouxe a esta confusão. Por conseguinte, precisamos descobrir como pensar, antes de saber como agir. (…) Só quando vós e eu descobrirmos a maneira de pensar corretamente, estaremos aptos a resolver os formidáveis problemas que nos desafiam. (…) (Idem, pág. 12)

Os problemas que se apresentam a cada um de nós e, portanto, ao mundo, não podem ser resolvidos pelos políticos ou pelos especialistas. Esses problemas não são resultado de causas superficiais. (…) Nossos problemas são complexos; só podem ser resolvidos como um processo total das reações humanas ante a vida. Podem os especialistas oferecer-nos planos de ação cuidadosamente elaborados, mas não são as ações planejadas que irão trazer-nos a salvação, mas tão somente a compreensão do processo total do homem, isto é, de vós mesmos. Os especialistas só têm capacidade para tratar de problemas num nível exclusivo, com o que aumentam os nossos conflitos e a nossa confusão. (O Caminho da Vida, pág. 25)

(…) Julgamos que muito pouco podemos fazer neste mundo, que os grandes políticos, os escritores famosos, os grandes guias religiosos são homens capazes de ação fora do comum. Na verdade, entretanto, vós e eu somos infinitamente mais capazes de produzir uma transformação fundamental do que os políticos profissionais e os economistas. Se dermos atenção às nossas próprias vidas, se compreendermos as nossas relações com os outros, teremos criado uma nova sociedade; do contrário, não faremos mais do que perpetuar a atual desordem e confusão. (Nosso Único Problema, pág. 30)
A esperança de um novo mundo está naqueles de vós que começarem a ver o que é falso e a revoltar-se contra o falso, não apenas verbalmente, porém realmente. E esta é a razão por que deveis buscar a educação correta; pois, só crescendo em liberdade, podereis criar um novo mundo não baseado na tradição ou moldado de acordo com a idiossincrasia de certo filósofo ou idealista. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 18)

(…) Para sermos livres, devemos pôr em dúvida a reação social, pois só então poderemos descobrir se o indivíduo é apenas o resultado da sociedade, ou algo mais. (…) Só os que põem em dúvida são capazes de promover a revolução social. Tais indivíduos, uma vez livres de padrões, de crenças, de ideologias, estão aptos para ajudar a criar uma nova sociedade, não baseada em condicionamento algum. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 8)

(…) Senhor, uma nova sociedade, uma nova ordem, não pode ser estabelecida por outras pessoas; ela tem de ser estabelecida por vós mesmo. Uma revolução baseada numa idéia não é revolução, absolutamente. A verdadeira revolução vem de dentro, (…) só vem quando compreendeis as vossas relações, (…) atividades diárias, vossa maneira de proceder, de pensar, de falar, vossa atitude para com o próximo, para com vossa esposa, vosso marido, vossos filhos. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 196-197)

Se, como indivíduos, não produzirmos essa transformação, de que outra maneira se produzirá ela? (…) Os poderosos, os milionários, os homens de muitas posses, não o farão. Isso tem de ser feito por gente comum, por vós e por mim. (…) Um homem pode ter coragem para opor-se aos ditames da sociedade; mas só o homem que compreende o complexo problema da transformação (…) a estrutura da sociedade, que é ele próprio, torna-se um verdadeiro indivíduo, e não um simples representante do todo coletivo. Só o indivíduo que não está preso à sociedade, pode influenciá-la. (…) (Verdade Libertadora, pág. 36)

Senhores, toda sociedade nova, toda civilização nova, deve ser começada por vós. Como foi que começou o cristianismo, o budismo, e todo movimento significativo? Pela iniciativa de uns poucos inflamados pela idéia e pelo sentimento. Tinham eles os corações abertos a uma vida nova. Constituíam um núcleo, não tinham crença em determinada coisa, mas tinham em si próprios a experiência da realidade - a realidade daquilo que viam. (…) (O que te fará Feliz, pág. 18)

Senhores, deveria existir uma classe de pessoas independentes do governo, não pertencentes à sociedade, à margem da sociedade - a atuarem como guias. Essas pessoas são os “açoitadores”, os profetas, que vos apontam os vossos grandes erros. (A Arte da Libertação, pág. 95)

Mas não existe nenhum grupo desses, porque o governo, no mundo moderno, não pode apoiar tal grupo, um grupo sem autoridade, que não pertence ao governo, a nenhuma religião, casta ou nação. É só um grupo desses que pode atuar como freio aos governos. (…) (Idem, pág. 95)

Em razão de os governos se estarem tornando cada vez mais prepotentes, pondo a seu serviço uma maioria de seres humanos, os cidadãos, em números cada vez maiores, se vão tornando incapazes de pensar por si mesmos.(…) Assim, só quando existe um grupo desses, um grupo enérgico, inteligente, ativo, só então há esperança de salvação. (…) (A Arte da Libertação, pág. 95)

Se não é, cumpre então que vos liberteis inteligentemente, despejando-vos do nacionalismo, da ganância, da inveja, do poder que a autoridade confere; e então, sendo um ser inteligente, estareis habilitado para observar a situação mundial e contribuir para o estabelecimento de uma nova educação e uma nova sociedade. (Idem, pág. 95-96)

(…) Agora, aqueles que têm lazeres, como as pessoas mais idosas, aposentadas, poderiam agir como intermediários, como instrumentos para a realização da revolução mundial. Dispõem de tempo, mas são indiferentes. E os que vivem empenhados em incessantes atividades, esses estão no meio da torrente e não dispõem de tempo para procurar as soluções dos vários problemas da vida. (Novo Acesso à Vida, pág. 151)

Assim, aqueles que se interessam por essas coisas, pela realização de uma transformação radical no mundo, resultante da compreensão de si próprios - só deles se pode esperar algo. (Idem, pág. 151)
Senhores, não vos parece ser esta uma pergunta importante que devemos fazer a nós mesmos? Pois estamos sempre satisfeitos com o conhecido; mas se arranhamos a crosta do conhecido, não encontramos nada, depara-se-nos o vazio, o vácuo. E, por certo, é muito importante saiba a mente viver de modo integral dentro desse vazio, desse silêncio e, lá, pensar e expressar-se, fomentar o pensamento e, conseqüentemente, a ação. (Visão da Realidade, pág. 204)

Eis por que devemos compreender o que significa “aprender”. Além de certo limite, nada mais podemos aprender, pois nada há que aprender, não há instrutor que possa ensinar-nos. E a esse ponto temos de chegar - o que significa, realmente, ser completamente livre de todo desejo de nos tornarmos alguma coisa, todo desejo de mais. (Idem, pág. 204)

Só quando a mente se acha nesse estado de vazio, em que não há conhecimento, em que não há mais o experimentador, aprendendo, acumulando - só então existe aquele esforço criador, podendo expressar-se através de vários talentos e artes, sem causar mais sofrimentos. (Visão da Realidade, pág. 204)

Está visto, pois, que devemos chegar àquele ponto em que nada há para aprender, porque lá a mente está livre da sociedade, livre de todas as mistificações, livre da luta pelo reconhecimento de nossa posição social, etc.; e só nesse estado de liberdade, fora do alcance da sociedade, se pode criar uma nova cultura, inaugurar uma nova civilização. (…) (Idem, pág. 204-205)




(…) Só existe a autoridade quando existe o medo. Com a compreensão do medo, da autoridade e da rejeição de todos os desejos de experiência - e essa é realmente a plenitude da madureza - torna-se a mente completamente silenciosa. Só nesse silêncio que é sumamente ativo - pode verificar-se uma revolução total na psique. Só então está a mente apta a criar uma nova sociedade, (…) comunidade, constituída de pessoas que, embora vivendo no mundo, a ele não pertençam. A vós cabe o dever de criar essa comunidade. (A Importância da Transformação, pág. 69)

 
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