24 de dez de 2011

Teoria dos Deuses

«Os deuses são o primeiro grau de abstracção.» 

Na evolução do espírito humano do pensamento concreto para o pensamento abstracto, há fatalmente um momento em que se dá a transição de uma forma de conceitos para a outra. Como se sabe, o homem primitivo , do mesmo modo que o selvagem de hoje, nas tribos cujo nível mental é de ordem a definir-nos qual fosse a mentalidade primitiva, não tinha o conceito abstracto. Não tinha, por exemplo, a ideia de «árvore», senão que simplesmente a ideia de tal árvore, concretamente. Herbart arquitectou uma curiosa teoria da formação das ideias abstractas; (...)
 
A evolução humana tem sido uma ascensão da capacidade de ter só ideias concretas para a capacidade de ter ideias abstractas. Como se deu essa transição? Podemos pôr várias hipóteses, mas qualquer delas, que possa ser considerada viável, há-de ter, para o ser, os característicos acumulados de uma hipótese a um tempo psicológica e sociológica. Não que isso forme duas hipóteses; é só uma, que inclui esses dois elementos, por isso que, sendo a mentalidade humana simultaneamente um facto individual e um facto ocorrido dentro da sociedade, as duas explicações redundam na mesma, abarcam um mesmo facto com dois aspectos, que são um só.

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Teoria dos deuses: Os deuses são o primeiro grau de abstracção. Ao passar do conceito concreto de tal árvore para a ideia abstracta de «árvore», o homem atravessou fatalmente um período intermédio. Que espécie de conceito faria ele das coisas — das árvores, para seguir o nosso exemplo — quando atravessava esse período? Pela hipótese, — e a hipótese marca sem dúvida um estádio que existiu, porque não podia deixar de existir, — o homem tinha já subido acima do conceito concreto de tal árvore mas não tinha chegado ao conceito abstracto de «árvore», de «árvore em si» (e aqui a expressão faz com que nos perguntemos se a «coisa-em-si» de Kant não seria uma mera concretização da abstracção.

Visto que não é abstracto ainda, esse conceito é concreto. Mas, visto que caminha para a abstracção, esse conceito não é inteiramente concreto. De que modo é concreto então? Podemos fazer várias hipóteses sobre como do concreto se chegou ao abstracto. A que logo ocorre, e logo é posta de parte, porque é ingénua e falsa, porque em círculo vicioso, é a de que o homem, reparando nas semelhanças entre as várias árvores, vá chegando à ideia de árvore; ou de que vá obtendo ideias primeiro, por exemplo, do carvalho, depois do abeto, e assim em diante, até, através dessas ideias, pelo mesmo processo, encontrar a ideia abstracta de árvore. Ambas estas hipóteses — duas formas, aliás, da mesma hipótese — pressupõem, porém, a já existência das ideias abstractas, por isso que o processo mental hipotetizado em elas mais não é do que um processo de abstracção, que subentende, portanto, que a abstracção já existe. É o género de hipótese que um homem civilizado forma quando desleixadamente, para fazer ideia de como um selvagem chegaria às ideias abstractas, abusivamente concebe que ele, civilizado, as não tenha, e a si próprio pergunta como as obteria se as não tivesse. Como não elimina de sua ideia, de seu espírito, as ideias abstractas, naturalmente supõe que as obteria por um modo que pressupõe que ele já as tenha.

Não foi este, por isso, o processo mental que o homem seguiu ao passar do pensamento concreto para o pensamento abstracto. Qual foi então? Reconstruamos, com os elementos que sabemos que temos, qual pudesse ter sido.
 
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Vendo a árvore florir, verdecer, dar fruto, murchar nas suas folhas, e perdê-las; depois, reverdecer, dar outra vez flor e fruto, e assim indefinidamente, o homem primitivo, que colhia, aliás, nos frutos um proveito dessa actividade ou vida da árvore, passou a reparar nos fenómenos de vida vegetal, no florescer, no frutificar, na primavera e no outono dos arvoredos. De aí, logo, um resultado: a cisão da noção concreta de tal árvore em duas coisas — uma, observada como estática, a árvore propriamente que permanecia sob a florescência, a frutificação e a queda das folhas; outra, vista como dinâmica, essa florescência, essa frutificação, essa velhice vegetal. Assim, a noção concreta da árvore, sem deixar de ser concreta, cinde-se em duas noções concretas, e no fenómeno «tal árvore», concreto em absoluto, a própria observação concreta abre brecha, cindindo-o em dois fenómenos concretos, apresentando, à mesma própria observação, os dois visíveis característicos opostos, de árvore-que-fica, de verdura-que-passa.

Sucede, a seguir, que o homem repara que esses fenómenos de vida vegetal se dão em todas as árvores. E se bem que não possa, no seu estádio de atraso mental, conceber a ideia de «árvore» abstracta, porque sempre tal árvore aqui, com tal aspecto e em tal lugar tal-outra árvore além, com tal-outro aspecto e em tal-outro lugar, já o mesmo não acontece com os fenómenos de vida vegetal que se dão em ambas árvores: esses fenómenos são dinâmicos, por isso chamam a atenção de outra maneira do que os estáticos, e o cérebro primitivo, que não vê semelhança entre árvore e árvore, porque árvore e árvore são coisas paradas e visíveis, permanentes e por assim dizer imutáveis, não pode fugir contudo a reparar que há semelhança entre os fenómenos que se dão em essa árvore e essoutra, porque a natureza transitória desses fenómenos faz atender a eles, a utilidade que a frutificação traz mais chama, para eles a atenção, e o geral carácter de estranheza, porque não são coisas quotidianas e habituais, mas sim periódicas, que esses fenómenos têm chama sobre eles uma atenção curiosa e não casual, e isso provoca a que se veja a semelhança entre a florescência de uma árvore e a florescência de outra árvore. Logo que esta semelhança é vista, está encontrada uma ideia concreta que serve de aproximação de duas ideias concretas: a de florescência servindo de aproximação de tal árvore e tal-outra árvore.
 
Esta noção de florescência, noção concreta, porque de uma coisa concreta, tem porém um característico especial. A florescência é uma coisa que não tem um lugar certo, mas sim vários lugares — todas as árvores e plantas onde se dá. Assim, fatalmente, a própria noção concreta de florescência tem uma feição especial que a distingue de todas as outras noções concretas — salvo, é claro, as que, do mesmo género, serviram ao mesmo processo mental. :É uma noção, por assim dizer, dispersa; é uma noção dinâmica; é uma noção, por último — e reparemos bem neste ponto — de uma coisa útil, ao contrário da de árvore-tal-árvore, como o primitivo a concebe — que não serve para nada.
 
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Encaminha-nos isto para uma consideração do estado social do homem primitivo que podia já ter estes pensamentos. Num período de absoluta selvajaria, de primitividade íntegra, eles não podiam aparecer. Só quando começou a domesticação dos animais, o cultivo da terra, só nas origens próprias da agricultura, este tipo de mentalidade pôde aparecer. Antes disso, além de que o acanhado da mentalidade que ainda não tivera artes de domesticar animais não indica que pudesse reparar nem para tão elementares fenómenos como o da frutificação com jeito de reparar deveras, há a ver que só quando uma nítida noção da utilidade — não só da Utilidade em geral, como também da utilidade das florescências e das frutificações — chamou a atenção para esses fenómenos, se esboçaria, e esboçando-se seguiria aumentando em clareza e congruência, uma noção suficientemente concreta da florescência e da frutificação para que pudesse ser caminho para uma noção abstracta; pois que, como provámos, a noção plenamente concreta da florescência é, de sua natureza, um passo para as noções abstractas.
 
Assim vemos como se entrepenetram os fenómenos social e psíquico na criação das ideias abstractas. Na época mental do homem em que ele pode chegar a um estado social que lhe permite formar-se a ideia de Útil — nessa época um concomitante e conexo fenómeno mental o faz atingir com atenção aqueles fenómenos do concreto que são de natureza a conduzi-lo às ideias abstractas.
 
O princípio das religiões está na divinização do fenómeno vegetal, e no de outros fenómenos da mesma natureza útil, dinâmica (...) Assim vemos que todos os deuses se reduzem a combinações e misturas de dois (três) géneros de deuses: os deuses da vegetação, e os deuses solares e astrais, por assim dizer.
Do mesmo modo, vemos que as religiões, propriamente tais, apareceram quando da transição do homem do estado mental puramente concreto para o já capaz de abstracção. E observa-se, de feito, que tal é o característico mental de todas as ideias religiosas, tanto das do paganismo como das outras.

O conceito de Deus que entre nós uma criatura religiosa, seja embora educada, faz, pertence a um género
de ideação que não é concreta nem abstracta.

Os deuses são as ideias humanas em passagem de noções concretas para ideias abstractas.
 
My hypothesis that all progress is based on a degeneration: Seria a transição do concreto para o abstracto por uma perda gradual da noção clara e sadia do concreto? A hipótese de que a transição dum período para outro procede através de um adoecimento é assim: há uma decadência, mas essa decadência, ao passo que é um prolongamento das coisas que existem nesse período, é, ao mesmo tempo, um aparecer de coisas novas que são o resultado da acção do fenómeno decadência sobre o fenómeno «tal estado de coisas»; assim aparece outro fenómeno. Depois esse fenómeno, em virtude de reacções contra ele do que há de são na sociedade, transforma-se em uma nova ordem de coisas. Se não há essa reacção, dá-se uma dissolução social. Entenda-se: todo o progresso provém de uma síntese de três elementos: 

1) (duvidoso) os elementos componentes de um estádio civilizacional; 

2) os elementos de decadência desse estádio; 

3) os elementos que reagem contra essa decadência. Estes últimos, ao mesmo tempo que reagem contra a decadência desses elementos, reagem contra esses próprios elementos, visto que, como nessa ocasião esses elementos só existem em estado de decadência, se se pusessem ao lado deles, isso seria porem-se ao lado da sua decadência, de elementos decadentes, que é a forma em que eles existem.)
 
(A dissolução de um estádio civilizacional representa: 1) o esgotamento das suas ideias-centrais, isto é, a inadaptação dessas ideias àquilo que o momento exige; 2) a formação, por esse mesmo facto, de essa decadência, de correntes que tentam salvar a sociedade... etc.)

A Índia foi a fase final das religiões do primeiro estádio civilizacional, isto é, o máximo da linha que partiu do homem super-primitivo, e ali chegou a seu ponto abstracto.

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A Grécia é um recomeçar. A Grécia é um regresso ao ponto de começo de todos os ciclos civilizacionais: o paganismo grego identifica-se em género à religião primitiva. Mas é uma oitava acima. De modo que de ali sobe a nossa civilizacão. E a Grécia aproveitara já elementos índios, isto é, elementos de uma cultura contrária à sua, porque um fim e ela era um princípio, e porque a Índia era de um estádio civilizacional anterior.

As civilizações vão por grandes ciclos, o fim de cada qual é criar na humanidade um tipo cada vez superior; de abstracção.

A civilização actual tem um característico que a distingue logo dos ciclos anteriores: é a universalidade, o abranger todo o mundo. Que resultado diferencial dará isto?
[...]

Estádios civilizacionais: 

a) aquele em que o homem domesticou os animais, o que deu origem à agricultura; nasceram as ideias de utilidade e de socialidade; nasceu o primeiro grau do conceito abstracto = o do vagamente concreto...
b) aquele em que uma raça superior dominou uma raça inferior e, por assim dizer, a domesticou como aos animais. Neste período nasceu o repouso, e de aí as artes propriamente tais. Nasceu o princípio aristocrático. Nasceu a sociedade propriamente dita.
c) aquele em que uma raça, reproduzindo o fenómeno anterior dentro de si própria, se separou em senhores e escravos ou inferiores. A nossa civilização é isto evoluindo. 1917?
 
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 304.
 
Regresso dos Deuses?

 

7 de dez de 2011

Coagulatio Alquimica - O Sofrimento Como Propiciador da Solidificação


 
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Saturno / Cronos


Resumo
A depressão, com seus aspectos simbólicos relacionados à Saturno, propicia na psique humana o retorno à interioridade e o aprisionamento de suas fantasias e devaneios na realidade limitada do mundo. Sente-se com isto, o sofrimento, o frio, o distanciamento social, assim como peso e escuridão, características evidentes do processo depressivo. Esta dimensão depressiva tem como principal finalidade proporcionar à psique um desenvolvimento criativo, promovendo o processo de individuação. A depressão pode ser associada subjetivamente ao metal Chumbo, que propicia o processo da Coagulatio alquímica, onde a solidificação, ou seja, a transformação do Mercúrio alquímico em terra, em sólido, é o principal objetivo, rumo ao encontro da pedra filosofal.
Abstract
Depression, with its symbolical aspects connected with Saturn, favors in human psyche the return of the interior and the imprisonment of fantasy. Depression causes the suffering, the cold, and the social distance, as well as weight and darkness. However, this depression dimension has the greatest goal to offer to psyche a creative development, promoting the individuation process. The depression can be subjectively associated to the metal, lead, that favors the Coagulatio Alchemist, where the solidification, or the transformation of Alchemist Mercury in earth, in soil, is the main goal, directed to meet the Philosopher's Stone.

A depressão, como qualquer outra realidade analisada sob o enfoque psicológico, revela uma instância paradoxal, formada por seus aspectos positivos e negativos (bipolaridade). Isto também é uma característica facilmente detectável na alquimia, onde basta folhear algumas páginas de seus tratados para se encontrar referências satisfatórias para tal afirmação. O presente artigo tem a pretensão de evidenciar estes aspectos paradoxais da depressão como propiciadores do processo Coagulatio, da Opus Alquímica. Para isto, será utilizada uma citação de Jacob Boehme, apresentada no livro Anatomia da Psique de EDINGER (1985, p.109), para que através de suas formações imagéticas e articulações, possamos compreender esta realidade.

"Saturno, esse frio, áspero, austero e adstritivo regente, não tem seu início e matriz no sol; porque Saturno tem em seu poder a câmara da morte, servindo para secar todas as forças, daí vindo a corporeidade. Pois assim como o sol é o coração da vida, e matriz de todos os espíritos do corpo deste mundo, assim também Saturno é iniciador de toda a corporeidade, compreensibilidade ou palpabilidade".


A alquimia, uma antiga tradição de origem incerta, foi foco dos estudos de Carl Gustav Jung a partir de 1928, após os conceitos básicos da Psicologia Analítica já haverem sido formulados, tornando-se assim, o seu principal estudo até o fim da sua vida. Com freqüência ele se deparava com sonhos de seus pacientes que não conseguia compreender nem com o estudo da mitologia, dos contos de fadas e estudos das religiões. Um dia, no entanto, consultando alguns livros sobre alquimia, percebeu que haviam muitas relações significantes entre as imagens oníricas de seus pacientes e as imagens contidas nestes livros.
 
Com o passar de seus estudos, Jung percebeu então que o simbolismo alquímico é, em grande parte, um produto da psique inconsciente do alquimista sobre a matéria a que se propunha estudar e manipular. Isto se deve a um mecanismo denominado projeção, considerada por Jung como uma manifestação psíquica natural em que o sujeito, sem ter consciência ou controle, projeta seu inconsciente sobre objetos, pessoas ou realidades. JUNG (1990, p. 256), em sua obra Psicologia e Alquimia afirma que:
 
...A real natureza da matéria era desconhecida do alquimista; ele tinha meros indícios a respeito. Ao tentar explorá-la, projetou o inconsciente sobre as trevas da matéria, a fim de iluminá-la... Enquanto fazia suas experiências químicas, o operador passava por determinadas experiências psíquicas que lhe pareciam ser o comportamento particular do processo químico. Como se tratava de uma questão de projeção, ele naturalmente desconhecia o fato de a experiência nada ter a ver com a própria matéria; mas sua experiência, na realidade, era do seu inconsciente.
 
Isto demonstra a fragilidade e o paradoxo entre o que é material e o que é psíquico, assim como a realidade de que não há como se relacionar com algo, sem colocar nossa interioridade como intermédio. Por isto é que PASSOS (1999, p.91) diz que "...E é dessa integração entre espírito e matéria que surge o mistério da alquimia e o mistério da análise, porque remetem ao mistério da alma, pela eterna ligação do inconsciente a "Anima Mundi"".

O trabalho dos alquimistas é chamado de Opus, onde, em termos gerais, tem como finalidade transformações e aperfeiçoamentos da prima matéria, buscando obter a sua transmutação em ouro ou pedra filosofal. Segundo SANTOS (1998), o conceito de prima matéria nasce a partir da crença de que existe uma substância primária, única e básica, de onde originou todo o universo. Este elemento se subdividiu então nos quatro elementos (água, terra, fogo e ar) e, frente a diferentes recomposições, formou os diferentes objetos físicos existentes no universo. Segundo BURCKHARDT2, a pedra filosofal pode ser definida da seguinte forma:
 
A pedra filosofal - com a qual se podem converter em ouro os metais vulgares - proporciona àquele que possui uma longa vida, livre de todas as enfermidades, depositando nas suas mãos mais ouro e prata do que os príncipes mais poderosos desse mundo possam possuir. Contudo, acima de todos os outros bens da vida, este tesouro possui a peculiar vantagem de tornar plenamente feliz aquele que possui, pois só o simples fato de olhar basta para o tornar feliz, além de que o temor de o perder é algo que nunca sente.
 
Em termos psicológicos, a pedra filosofal poderia ser comparada ao que se busca no processo de individuação, ou seja, a completude do ser, o tornar-se consciente e uno, o self. Tendo isto como realidade, a processo alquímico seria então o próprio processo de individuação, ou seja, o que gera o desenvolvimento e a transformação.

A Opus Alquímica é subdividida em inúmeros processos, normalmente denominados de Calcinatio, Solutio, Coagulatio, Sublimatio, Mortificatio, Separatio, Coniuctio entre outros, onde cada processo faz referência a um determinado elemento da prima matéria. Então, por exemplo, a Calcinatio tem relações com o fogo, o Solutio tem relações com o elemento água, e assim por diante. Em outros textos alquímicos, a Opus também pode ser encontrada como subdividida pelos seguintes processos: nigredo, albedo e rubedo.

JUNG (1977, p. 228), resume a Opus Alquímica da seguinte forma:
 
A alquimia representa a projeção de um drama ao mesmo tempo cósmico e espiritual em termos de laboratório. A opus magnum tinha duas finalidades: o resgate da alma e a salvação do cosmos... Esse trabalho é difícil e repleto de obstáculos; a opus alquímica é perigosa. Logo no começo, encontramos o "dragão", o espírito ctônico, o "diabo" ou, como os alquimistas o chamavam, o "negrume", a nigredo, e esse encontro produz sofrimento... Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até a nigredo desaparecer, quando a aurora será anunciada pela cauda do pavão (cauda pavonis) e um novo dia nascerá, a leukosis ou albedo. Mas neste estado de "brancura", não se vive, na verdadeira acepção da palavra; é uma espécie de estado ideal, abstrato. Para insuflar-lhe vida, deve ter "sangue", deve possuir aquilo a que os alquimistas denominam a rubedo, a "vermelhidão" da vida. Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal de albedo num modo de existência plenamente humano. Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que o derradeiro vestígio de negrume é dissolvido, em que o diabo deixa de Ter existência autônoma e se junta à profunda unidade da psique. Então, a opus magnum está concluída: a alma humana está completamente integrada.
 
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O Simbolismo do baphomet
O processo da Coagulatio é relacionado ao elemento terra, pois é a realidade da alquimia que solidifica, que corporifica, que transforma as coisas em terra, criando para elas formas e posições fixas. Esta seria a corporeidade, a compreensibilidade e a palpabilidade citada por Jacob Boehme. A Coagulatio também é associada ao processo da rubedo, ou seja, o sangue, "a vermelhidão" da vida. Neste processo, Mercúrio, também conhecido como Hermes, é a substância que deve ser coagulada. Este metal tem características próprias que retratam uma realidade fugidia e autônoma, sem forma ou padrão fixo. Suas imagens são também associadas ao espírito, em oposição à realidade corporal, à matéria. Ele representa a autonomia da psique e as relações paradoxais do Self, também encontradas constantemente nos textos alquímicos. Sua coagulação seria então concretizar, ou seja, promover a ligação Ego/Self. JUNG (1937, par. 101), comenta a relação espírito/Mercúrio dizendo que "O anjo, como um ser espiritual alado, representa como Mercúrio, a substância volátil, o pneuma, o desencorporado. Na alquimia o espírito tem quase que invariavelmente uma relação com a água ou com a umidade radical".



Segundo a alquimia, o processo da Coagulatio Alquímica sobre o Mercúrio se dá sob as influências do metal Chumbo, que representa o lado pesado, denso, incômodo e sombrio. Ele é associado ao planeta Saturno, também conhecido como o deus grego Cronos (tempo), onde segundo COMMELIN (1986), é filho segundo de Urano (céu) e da antiga Vesta (terra). Ele e seu irmão Oceano se revoltaram contra o pai, o impossibilitando de ter filhos. Urano, magoado e ferido morre, sendo então destronado por Saturno no lugar de seu irmão primogênito Titã, mas tendo como condição fazer morrer todos os seus filhos homens, a fim de que a sucessão do trono seja reservada para um filho de Titã. Casou-se com Réia ( a Grande Mãe), de quem teve muitos filhos. Saturno porém, herdara de seu pai o egoísmo e a crueldade para com os seus filhos, devorando-os avidamente, conforme combinara com seu irmão. Réia consegue então salvar três filhos, Júpiter, Netuno e Plutão e uma filha, Juno. Júpiter então o destrona e o transforma num simples mortal. Saturno foge e se esconde em Lácio, na Itália. Lá, se torna o rei da idade de ouro, onde seus pacíficos súditos são governados com doçura.

O lado maligno de Saturno é percebido perfeitamente na citação de Chaucer, no livro de EDINGER (1985, p. 109).
 
"Minha órbita, que tem de percorrer trilha tão longa, 
Tem mais poder do que qualquer homem pode imaginar.
Meu é o que se afoga lá embaixo do mar;
Minha a masmorra na parte mais baixa do fosso;
Meu o enforcado e quem se estrangula pela garganta;
Meus a rebelião e os murmúrios abjetos da multidão,
Os gemidos, os envenenamentos secretos,
E a vingança e as sanções arbitrárias - tudo é meu,
Embora eu ainda esteja sob o domínio do Leão,
Minha é a ruína de todos os altos salões,
E a queda de torres e paredes
Sobre o carpinteiro e o minerador.
Derribei Sanção, o destruidor de colunas;
E minhas mãos são todas as moléstias tão desalentadoras,
As negras traições e velhas patifarias;
Meu olhar é o pai de toda pestilência."

       
Segundo Thomas Moore (1984), Saturno é, desde a antigüidade (anos de 500 a 600 d.C.), associado à depressão, à melancolia e à tristeza Esta realidade, na alquimia, é associada ao processo da nigredo, pois imageticamente representam o sofrimento, a escuridão, o peso e a frieza. Por esta razão, a sociedade atual, que busca incessantemente a felicidade eterna, o brilhante, o colorido e o estético observam a depressão como repugnante e como um mal que deve ser combatido com todas as forças. A depressão é então uma instância sombria e reprimida da psique humana.

Há neste caso, uma total inconsciência da real natureza da psique, que se funda na relação dos opostos, no paradoxo entre o positivo e o negativo, o consciente e o inconsciente, o brilhante e o sombrio, o claro e o escuro. O processo de individuação trás ao indivíduo esta realidade da psique, pois seu objetivo é tornar consciente estas oposições paradoxais da alma, buscando o assim o desenvolvimento da alma do indivíduo. Para isto, porém, a pessoa deve se deparar com o sombrio, com o negativo, com a depressão, que é a primeira instância alquímica, a nigredo alquímica. Como fundamento arquetípico, Saturno tem sua parcela neste processo, pois teleologicamente promove a percepção dos opostos, aproxima os indivíduos às suas partes mais escuras e rejeitadas. Este é o lado positivo da depressão, unir opostos, transformar criativamente a psique, promover Coagulatio.

Por dominar a idade de ouro, o Saturno mitológico influencia arquetipicamente a psique humana, remetendo-a ao passado, à reflexão e à memória, sendo considerado como o patrono do passado, por preferir os dias que se foram. Este processo de voltar ao que passou promove na psique o sentimento de envelhecer, de morte e temporalidade. A pessoa sob seu domínio, sente-se mais velha e ao mesmo tempo mais sábia. Tem a percepção de que a vida está passando, seguindo seu caminho. É por esta razão que na depressão formam-se imagens explícitas de morte, de que o fim está próximo, assim como sentimentos de que não vale a pena continuar vivendo. O processo promove o deparar e consequentemente a aceitação da morte e o luto pela juventude. Nestas características é que reside o que Jacob Boehme explicitou afirmando ter Saturno o poder sobre a câmara da morte. A pessoa em depressão está inconscientemente vivendo o arquétipo da morte e do renascimento. Saturno nesta influência, retrata a oposição eternidade/temporalidade, imortalidade/mortalidade, self/ego.
Para JAFFE (1995, p.36):
  
 "O deprimido tenta com freqüência desviar sua atenção ou arrancar-se desse estado. Se conseguem, a morte não é experimentada na sua totalidade e pode não ocorrer o renascimento, que faz parte do processo. Deve-se reconhecer a existência de alguma boa razão para a depressão, e tentar compreender esta ajuda a si mesmo (...) Em Jonas no Ventre da Baleia, manter-se consciente na depressão, trás transformações fundamentais e positivas para o indivíduo.
  
Segundo Steinberg (1992), a visão de Jung é de que o alheamento percebido no processo depressivo frente ao meio externo, pode ser explicado aliando a depressão à introversão como uma forma de compensar uma orientação muito extrovertida, pois observando simbolicamente a depressão, ela indica a necessidade de se atender a vida interior. A pessoa extrovertida se caracteriza por uma extrema sensibilidade frente às necessidades do mundo externo, sendo concebida, quando exacerbada, como uma defesa contra a ameaça da perda que leva à desorganização e consequentemente à depressão profunda. Temem então a introversão pelo medo de descobrir alguma coisa no inconsciente que desencadeará um ciclo depressivo e porque o próprio processo de dar atenção a suas vidas interiores pode ter conseqüências assustadoras. Tanto olhar para dentro como o subsequente reconhecimento de sua natureza única, são atos de separação e independência, o que vem como conflito para alguém que vive para os outros, num ato de extrema simbiose e dependência. Por isto, exacerbam na extroversão e evitam a introversão, protegendo-se frente à ameaça da perda de amor.

No entanto, quando há uma depressão, a energia psíquica que antes era utilizada pelo ego para atos extrovertidos, retorna na forma de uma introversão forçada para o inconsciente, a fim de promover novas mudanças e desenvolvimentos na psique, ou seja, satisfazer as exigências do processo de individuação. Na vida prática do indivíduo, percebe-se com isto uma volta para seu mundo interior e consequentemente o retraimento social, a tristeza e a "falta de energia" tanto falada pelos depressivos, denominada por Jung de abaissement du niveal mental.

Saturno, como um planeta distante, frio e seco, é o regente arquetípico deste processo, pois quem está sob seu domínio, sente suas características tipicamente introvertidas, como compensação da umidade do calor e da proximidade, que representam a atitude extrovertida. Por isto, Jacob Boehme em sua citação, tão bem coloca que Saturno seca todas as forças. Thomas Moore (1994, p.134) descreve este processo associando ainda as atitudes introvertidas e extrovertidas com as características da anima e do animus, conforme citação abaixo:
   
Na linguagem junguiana, Saturno pode ser considerado como representante do animus. O animus é a parte profunda da psique que enraíza as idéias e abstrações da alma. Muitas pessoas têm forte anima - são cheias de imaginação, vivem próximas à vida, são empáticas e ligadas às pessoas ao seu redor. No entanto, essas mesmas pessoas podem ter dificuldade para se afastarem o suficiente do envolvimento emocional e conseguirem ver o que está acontecendo, e para relacionarem suas experiências de vida com suas idéias e valores. Sua experiência é "úmida", para usar outra metáfora antiga para a alma, pois estão por demais envolvidas emocionalmente com a vida, e assim podem se beneficiar de uma excursão para as distantes regiões do frio e seco Saturno.
   
Como já mencionado anteriormente, o metal chumbo, utilizado no processo alquímico, é relacionado a Saturno. Esta associação promove o aprisionamento das fantasias, devaneios e inflações da alma na densa e pesada realidade, com suas limitações corporais e pessoais. Este processo é nitidamente colocado por Thomas Moore (1994, p.131), quando diz que este é um processo que permite a "(...)aglutinação dos elementos leves e aéreos. Neste sentido, a depressão é o processo que gera uma valiosa aglutinação de pensamentos e emoções(...)nossas idéias antes leves, divagadoras e desligadas umas das outras, reúnem-se mais densamente e formam valores e uma filosofia, dando às nossas vidas substância e firmeza". O chumbo então, completa o processo que retrata a realidade depressiva sob os domínios de Saturno.

A realidade depressiva contribui no Processo de Individuação, pois proporciona um movimento de compensação inconsciente, desenvolvendo com isto a psique. Considerando novamente a citação inicial de Jacob Boehme, com seus símbolos e imagens, percebemos que Saturno, tanto mitológico como planetário, com seus aspectos considerados frios, ásperos, austeros, adstritivos, nocivos, perigosos e negativos, associados ao chumbo alquímico, podem, numa realidade mais positiva, promover o desenvolvimento e o movimento psíquico através do sofrimento e da depressão, passando assim numa postura mais criativa do inconsciente, para o processo alquímico rubedo, Coagulatio, ou seja, a corporificação do espírito/Hermes/psique, a união do ego com o si-mesmo.



Referências Bibliográficas:

BURCKHARDT, Titus, Triunfo da Hermética. Apostila Solve et Coagula.
    COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro. Editora Tecnoprint, 1986.
    EDINGER, Edward F. Anatomia da Psique - O simbolismo alquímico na psicoterapia. 10. Ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1990.
    JAFFE, Lawrence W. Libertando o Coração: Espiritualidade e Psicologia Junguiana. 9° Ed. São Paulo. Editora Cultrix, 1995.
    JUNG, C.G.. The Visions os Zozimos. In:, Alchemical Studies. 1937.
    JUNG, C.G.. Psicologia e Alquimia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1990.
    _____. Carl Gustav Jung Speaking. Organizado por William McGuire e R.F.C. Hull. Princeton, Nove Jersey: Princeton University Press, 1977.
    MOORE, Thomas. Cuide de sua alma. São Paulo: Editora Siciliano, 1994.
    PASSOS, Maria Cristina Carvalho. A metáfora Alquímica. Psicologia Argumento, Curitiba, ano 17, N° 24, p.81-88, abril 1999.
    SANTOS, Vitor P. Calixto dos. Jung e a Metáfora Alquímica. Disponível na Internet. http://www.symbolon.com.br/metaforaalquimica.htm. 27 ago. 2000.
    STEINBERG, Warren. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana. São Paulo. Cultrix, 1992.   
1 Filiação científica: Estagiário de 5° ano do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba - PR, sob a supervisão da professora Maria Cristina Carvalho. E-mail: julianoboi@yahoo.com.br
2 – O texto de Burckhardt foi retirado da apostila Solve et Coagula, cedida pela supervisora Maria Cristina Carvalho, porém não consta origem, data nem página.

Um texto de: Juliano Maluf Amui

+ Estudo do VITRIOL, INRI e Solve et Coagula



  
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