28 de ago de 2012

Isaac Luria




"Meu mestre costumava expor os assuntos da lei de acordo com seu sentido literal, em cada um dos seis dias da semana. Mas depois ele costumava expor os significados secretos em honra do Sabbath.

"O estudo da Torah deve ter como sua motivação primária ligar a alma à sua fonte através da Torah, a fim de completar a árvore superna - os Sephiroth - e completar e aperfeiçoar o homem super

no... Se uma pessoa não se aperfeiçoou cumprindo os 613 mandamentos a respeito da ação, fala e pensamento, por força da necessidade ela se verá sujeita à 'gilgul' - reencarnação - e quem quer que não tenha estudado a Torah de acordo com os quatro níveis indicados por 'p r d s', que é um conjunto composto pelas letras iniciais das quatro palavras: 'peshat', literal; 'remez', alegórico; 'derash', homilético; e 'sod', místico, terá sua alma voltando à encarnação de modo que ela possa completar cada um deles".

'Shulhan Aruk'

JACOB ZEMAH

O ano de 1492 é lembrado como o do início da grande era de explorações, uma queda das crostas dos olhos europeus e uma revelação das civilizações do leste, do sul e do 'novo mundo' além do oceano ocidental. A Renascença florira e frutificara na Itália, e começava a se mover para o norte, mas como ocorre com as grandes luzes, suas sombras foram escuras e profundas. Os Muçulmanos foram expulsos da Espanha e a Inquisição florescia. Assim como as maiores civilizações da América seriam brutalmente destruídas nesta nova época, também a cultura Islâmica representada pelo resplendente Alhambra seria erradicada. Os Judeus, que haviam prosperado e ascendido a posições de poder e proeminência sob o governo Islâmico, foram ameaçados e perseguidos. Em 1492 deu-se a todos os Judeus da Espanha quatro meses para deixarem o país, ou seriam executados. A conversão, uma opção inaceitável para a maioria, era igualmente inaceitável para a Inquisição, que processava indiscriminadamente Judeus marranos e verdadeiros conversos. O vasto êxodo resultante desta política implacável foi chamado de 'O Exílio', e teve seu efeito próprio e profundo no mundo mediterrâneo. Alguns do exilados perambularam pela Europa Central e alguns acabaram parando na Itália e Grécia, mas um grande número fugiu para o norte da África e o Oriente Médio.

O conhecimento Muçulmano havia brilhado no sul da Espanha, onde seus dinâmicos movimentos Sufi haviam construído um pano de fundo para o ressurgimento dos ensinamentos Kabbalísticos. Lá o 'Zohar' havia se tornado amplamente conhecido, e centros de estudo Kabbalístico desenvolveram penetrantes doutrinas filosóficas e sofisticadas técnicas de meditação, ambas enraizadas no princípio de que a percepção interior é cultivada por uma vida ética purificadora. Como a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 dC, levou à disseminação da Kabbalah através da Diáspora, do mesmo modo o Exílio de 1492 estimulou a criação de novos centros de aprendizado Kabbalístico e levou à sua difusão no Judaísmo popular da Europa. Fez, no Marrocos, se tornou um destes centros, onde o pensamento Sufi há muito havia encontrado um porto. O Egito e a Turquia também forneceram lugares para a contemplação mística, mas o principal centro estava localizado na antiga Galiléia, a terra natal de Jesus, na cidade de Safed. Safed era o local tradicional do túmulo de Simeão ben Jochai, o Instrutor que primeiro ordenara que partes da Kabbalah deviam ser postas por escrito, depois da destruição do SegundoTemplo.

Joseph Karo, nascido em Toledo, foi levado por sua família para Constantinopla, durante o Exílio. Renomado erudito Talmudista e pensador jurídico, suas intensas meditações privadas levaram-no em 1536 a Safed. Lá ele se tornou 'rabbi'-chefe e cultivou um grupo de jovens Kabbalistas, métodos de meditação e doutrinas sobre a imortalidade e reencarnação que foram comparadas ao Yoga hindu e às filosofias Budistas tibetanas. Moisés Cordovero, cuja primeira parte de sua vida é desconhecida pela história, estabeleceu-se em Safed e estudou com Karo. Com a idade de vinte e seis anos ele já havia composto o 'Pardes Rimmonim' ('Pomar de Romãs'), que delineava treze caminhos para estados transcendentais de consciência. Ele sustentava que a incessante troca de energias entre os Sephiroth fornece uma chave para o entendimento do ser humano e de sua relação com a Natureza visível e invisível. Como membro do grupo conhecido como Chaverim - Associados - ele compilou uma lista de preceitos pelos quais ele e seus companheiros procuravam viver. Estes princípios eram Pitagóricos em sua natureza e incluíam o voto de jamais ser forçado à raiva, de evitar comida em excesso, de falar a verdade, de aceitar sem agitação tanto a dor como o deleite, e de rever os pensamentos e ações próprios antes de cada refeição e antes de se retirarem para dormir. Assim, em Safed formou-se um vórtice místico em torno da memória de Simeão ben Jochai, iluminado pela luz numinosa do 'Zohar', e reunindo aqueles que viam que o fim só poderia ser encontrado no início, e que percebiam na turbulência do Exílio um símbolo da alienação de toda alma humana de sua fonte transcendental. Isaac Luria entrou neste vórtice e se tornou seu foco fulgurante em sua própria época e nos séculos que viriam depois.

Isaac Luria, que veio a ser chamado de Ha-Ari, 'o Leão', a partir das iniciais de Ha-Elohi Rabbi Yizhak, 'o divino Rabbi Isaac', nasceu em Jerusalém em 1534. A família de seu pai era de emigrantes Ashkenazi vindos da Alemanha, e sua mãe pertencia à família Sefardita Frances, talvez exilados na expulsão espanhola de 1492. Lendas obscurecem sua vida inicial, sugerindo que com sete anos ele tenha ido para do Egitrto com sua mãe, logo depois da morte de seu pai. Ele mais tarde atestou, contudo, que havia estudado a Kabbalah com o Kabbalista polonês Kalonymus, em Jerusalém. A história verifica que ele estudou no Egito com Davi ben Salomon ibn Abi Zimra, e com seu sucessor Bezalel Ashkenazi, ambos mestres do 'halakha', o sistema legal ortodoxo. Ele conquistou uma sólida reputação no estudo da lei e da literatura rabínica, e pelo menos um de seus pareceres 'halakha' sobrevive até hoje. O Genizha no Cairo contém documentos que mostram que ele era comerciante, uma atividade que manteve em Safed, onde ele colocou seus negócios em ordem apenas três dias antes de morrer. Enquanto ganhava reconhecimento público como participante ortodoxo na comunidade, ele estudava assiduamente os mistérios da Kabbalah. Antes de se mudar para Safed ele escreveu um breve tratado sobre o 'Livro da Ocultação', uma seção fundamental do 'Zohar', mas nada neste comentário sugere as concepções extraordinárias que mais tarde ele haveria de transmitir aos seus discípulos.

Em 1570 Isaac Luria estabeleceu-se em Safed com sua família, onde ele foi reconhecido como um exímio estudante e professor da Kabbalah, incluindo suas rigorosas práticas meditativas. Ele já entendera que a Kabbalah, quando aplicada aos estados de consciência, conduz a poderes extraordinários, e advertiu seus seguidores para que evitassem toda fascinação com práticas mágicas ambíguas através da adesão à busca desinteressada de sabedoria espiritual. Ele estudou com Moisés Cordovero pouco antes da morte deste no outono de 1570. Cordovero teve a oportunidade de ler alguns livros de Luria antes de morrer, e não havia dúvidas de que, a despeito do curto período que estava em Safed, Luria seria o sucessor de Cordovero. Reuniram-se discípulos em um círculo esotérico em torno de Luria, muitos dos quais haviam estudado com Cordovero. Enquanto sua fama por sua sabedoria 'halakha' e pureza de conduta pessoal haviam se espalhado tão longe como no Egito e Europa, ele mantinha seus ensinamentos sobre a Kabbalah completamente ocultos. Construindo aposentos especiais para eles e suas famílias, este grupo muito íntimo se ocupava de estudos intensivos, trabalho comunal e meditação individual, todos guiados por Luria. Quando ele morreu em 1572, com a idade de trinta e oito anos, menos de três anos depois de chegar a Safed, ele já havia deixado uma marca indelével na Kabbalah e uma poderosa convicção entre seus seguidores a respeito de sua inspiração divina.


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Luria, como todo o verdadeiro estudante da sabedoria perene, não buscou mudar ou acrescentar nada à Kabbalah. Ele tomava a tradição, especialmente como ela era apresentada no antigo 'Zohar', como a moldura e guia para suas meditações profundamente intuitivas, e sua percepção interior e compreensão racional eram embasadas solidamente na disciplina diária da vida ética. Como todos os verdadeiros aprendizes, ele trouxe uma nova perspectiva para os assuntos sagrados que estudou. Embora a tendência de pensar sobre a origem divina do mundo em termos temporais como uma 'creatio ex nihilo' já houvesse afetado o pensamento Judeu, Luria entendia os primeiros versos do 'Gênesis' em seu sentido original: "Quando Deus (Elohim) começou a criar o céu e a terra, a terra era um vazio informe". A criação emergira da atividade divina na e sobre a matéria primordial. Para Luria a verdadeira questão era: de onde vinha esta matéria primordial? Se a Deidade é onipresente - uma mera expressão semelhante para Aquilo que não tem espaço e tempo - então onde haveria lugar para existir a matéria primordial? Antes do que imaginar o caos existindo em algum espaço fora da Deidade, Luria ensinava que a existência manifesta teve seu primeiro início etéreo na 'zimzum', contração.

Ain-Soph, o Infinito e Ilimitado, a Fonte Desconhecida e Incognoscível de todas as emanações e diferenciações, 'deus absconditus', não pode ser ligado à cadeia de emanações progressivas representadas na Árvore Sefirotal. Não é a primeira das causas: está além da causação e portanto alheio a todo relacionamento com qualquer coisa finita. Neste sentido, existe um hiato entre aquilo que é completamente não-manifesto e todas as formas de manifestação. Ain-Soph não pode emanar nada; nem há lugar para nada além de Ain-Soph. A primeira atividade que marca o começo da existência manifesta é 'zimzum', a contração, a retirada da Deidade de algum lugar, "a entrada de Deus em Si mesmo", uma limitação do Divino através da ocultação. Comparado com a Infinitude, o lugar de retirada é apenas um ponto, e este ponto é 'tehiru', o espaço primordial. A retirada do Divino deixa um espaço de resíduo ou aroma caótico, 'reshimu', a dimensão matérial do futuro universo. Este resíduo de Luz Absoluta é o substrato receptivo para a criação e o poder ordenador da emanação que se segue à contração, e em si mesmo é o espaço. Assim, tanto substrato como potência têm sua origem na Deidade Incognoscível. De Ain-Soph, que abrange o espaço, surge um Raio cujo foco suscita uma resposta de 'reshimu' sob forma de um vaso primordial que pode receber o Raio. Uma vez que o Raio vem como que de todos os lados, o vaso refrator é esférico, e uma vez que o Raio é uma 'medida cósmica' ascendente e descendente, conhecido como 'rahamin' (compaixão), o pulso universal é refletido em um vaso décuplo, os dez 'kelim' ou vasos dos Sephiroth. Tomados juntos, os Sephiroth constituem Adão Kadmon, o homem primordial, o elo entre Ain-Soph e o espaço puro ou 'zimzum'. Contração e expansão, regressão e progressão, 'histalkut' e 'hitpashtut', são o ritmo da evolução cósmica e a batida do coração de Adão Kadmon, o Homem Cósmico. Toda existência corporificada no universo tende para a esfera em sua forma e para o homem em suas potencialidades oviformes.

Metafisicamente, a origem do mal é encontrada na limitação do Absoluto representada pelo 'zimzum'. O ato ontológico e atemporal que permite a existência dos indivíduos é também a fonte do impulo evolutivo e da necessidade de escolher entre o bem e o mal. A vida ética - a vida da escolha consciente - é tão primordial e original como a própria existência. Não obstante, outros eventos ontológicos precedem a existência dos indivíduos concretos e das escolhas práticas. O Raio que entra em 'reshimu' inicia duas atividades encontradas na geometria Pitagórica do ponto: o movimento dinâmico que é descrito geometricamente como 'iggul ve-yosher', círculo e linha. O círculo é a forma natural da energia divina, e a linha é a atividade voluntária que procura criar um todo unificado. Muito parecido com uma mola de cobre que permanece inerte até que um ímã se mova sobre ela, criando uma corrente elétrica na mola, os Sephiroth esféricos são vivos por causa das linhas que os conectam em relações vivas. A Árvore das Luzes é o aspecto ativo das esferas concêntricas quiescentes de Adão Kadmon. As linhas da vontade elétrica dão uma alma ao Home Cósmico. Da cabeça de Adão Kadmon se irradiam tremendas luzes em padrões complexos, a língua pristina da Torah que é o reino dos arquétipos espirituais. Assim, os Sephiroth, quando entendidos voltados para sua Fonte derradeira, são cada um deles um Nome divino.

Esta coleção inicial de luzes foi chamada de 'olam ha-tohu', o mundo do caos, pois ela representa a limitação original de 'zimzum' sem a perfeição ordenada de toda a Árvore, uma vez que o movimento linear do Raio ainda não estabilizou as relações entre os Sephiroth. Cada luz é contida em um vaso de luminosidade mais densa derivado de 'reshimu'. À medida que a luz do Raio flui de Kether, o primeiro Sephira, para os outros Sephiroth, ocorre um desastre cósmico. A tríade superior de Sephiroth suportou a luz, mas as duas outras tríades se despedaçaram com a sua intensidade espiritual, e o Sephira mais baixo, Malkhuth, o reino astral, rompeu-se. Algumas das luzes caídas de imediato voltaram para sua fonte, mas algumas caíram junto com os vasos, e estes fragmentos materiais vivificados se tornaram os 'kelippoth', as cascas vampíricas e forças demoníacas de 'sitra ahar', a região das emanações tenebrosas. Ao passo que este desastre poderia parecer inexplícável, é o resultado necessário da natureza de 'zimzum' como limitação. De certa maneira, a restauração da Árvore das Luzes à sua forma perfeita é uma parte inerente do processo de evolução. A vida moral e espiritual dos seres humanos individuais é um aspecto integrante da urgência divina de manifestar um microcosmo que seja a imagem temporal perfeita da Deidade transcendente.

A história da emanação e evolução é a história de 'tikkun', a restauração de uma ordem intencional que jamais existiu no tempo. Tikkun, a redenção do mundo e de cada indivíduo dentro dele, é o cumprimento do impulso original da vontade inteligente e também é, assim, essencial à lógica de 'zimzum'. A luz fragmentada que emanou da cabeça de Adão Kadmon deve ser restaurada para o todo harmonioso que se manifesta como a comunidade universal dos seres justos. Esta luz quintessencial, que na consciência é a sabedoria espiritual, é o principal elemento em todas as tentativas de restauração. A tríade mais alta de Sephiroth - Kether (a coroa e semente das emanações), Hokhmah (sabedoria pura) e Binah (inteligência abstrata) - é o suporte para a restauração, uma vez que não foi afetada pelo desastre cósmico. Elas ligam as luzes desfiguradas como sendo a primeira fase de um processo alquímico de transmutação no qual a espessura da treva pode ser removida ao mesmo tempo que se preserva a luz espiritual embutida. A Árvore das Luzes se manifesta nesta forma intermediária como as cinco fisionomias ou "faces" de Adão Kadmon, correspondendo aos quatro mundos, desde o arquetípico até o material e ilusório. A primeira 'parzuf' ou face consiste de Kether como Arikh Anpin, a paciente, correspondendo ao mundo arquetípico Aziluth. As segunda e terceira 'parzufim' são Abba e Imma, pai e mãe, Hokhmah masculino e Binah feminina, consideradas do ponto de vista da restauração e correspondendo a Beriah, o mundo da potência criativa. De sua união surge a 'parzuf' Ze'eir Anpin, a impaciente, constituída pelos seis Sephiroth ou o mundo formativo que contém os seis poderes da Natureza no mundo de Yetzirah. O Sephira inferior, Malkhuth, se torna a 'parzuf' Nukha de-Ze'eir, o aspecto feminino receptivo da Natureza, correspondendo ao mundo material de Asiah, manifesto aos cinco sentidos.

As cinco 'faces' constituem o Adão Kadmon como o cosmo parcialmente restaurado que só a humanidade pode levar à completude. Esta descida a partir do Adão Kadmon pristino estabilizou o mundo com uma ordem e harmonia intermediárias que permitem a continuidade dos esforços alquímicos de restauração. É uma restauração externa; a tarefa do ser humano é a restauração interna. Desta forma, cada Sephira fica um degrau abaixo do que sua ordem natural. Assim, Malkuth, o reino astral, se manifesta à consciência como o mundo físico, uma ilusão. Para o ser humano, a 'tikkun' tem dois aspectos: cumprimento dos mandamentos e meditação mística. A vida pura pode ser estabelecida em termos dos 613 mandamentos ou injunções encontrados na Torah (O número é significativo, pois 6 se refere aos poderes da Natureza e 13 é um a menos do que 2 x 7, o número da perfeita unidade ascendente e descendente, enquanto que 6 + 1 + 3 = 10, o número Pitagórico da completude e perfeição cósmicas). Cada mandamento tem um sentido literal, alegórico e espiritual. Enquanto que cada ser humano contém mais ou menos da luz superna associada a uma das sete hierarquias ou raízes de luz, correspondendo aos sete vasos danificados, é impossível cumprir todos os mandamentos em uma vida comum. Assim, todos os seres humanos são envolvidos na 'gilgul', reencarnação, na qual cada alma progride para a 'tikkun' interna, a restauração através do aperfeiçoamento gradual, e as 'gilgulim' ou reencarnações tomadas em seu conjunto trabalham para a restauração do cosmos.

A prece é tornada eficaz através de 'kavvanah', a intenção mística, quando é uma meditação profunda sobre a natureza e sobre a necessidade por unidade cósmica. Ao mesmo tempo, é a reunião das forças da restauração, a subida da alma para sua Fonte divina através da contínua purificação e da continuidade da consciência espiritual, e a fonte da magia. A prece deveria sempre ser voltada para dentro e para cima, em direção ao Divino, de modo que não se torne uma tentativa degradada, embora poderosa, de tentar manipular o mundo. A prece, portanto, é um esforço espiritual de focalizar a vontade no todo, cujo 'afflatus' será a compaixão e a benevolência, assim como uma poderosa corrente elétrica que circula em uma espiral ascendente (combinando 'iggul ve-yosher,', círculo e linha) cria um campo magnético que tende a alinhar em torno de si mesmo entidades suscetíveis de magnetização. No processo de autotransformação, a pessoa une os Sephiroth em sua apropriada ordem elevada, contribuindo para a 'tikkun' do cosmo, e dissolvendo as 'parzufim' de modo que o Adão Kadmon pristino e primordial se manifeste na consciência, apontando para o sempre não-manifesto Ain-Soph. Porque a meditação baseada na autropurificação ética é uma força poderosa para o bem universal, sua sombra é igualmente poderosa. Daí que os 'dibbukim', os demônios obsessores da inversão e da magia negra, serão reais enquanto o cosmo não for uma harmonia perfeita. Entre os ensinamentos mais secretos de Luria estava a doutrina do 'ibbur', o ensinamento de que almas muito avançadas em encarnações que foram cheias de justiça poderiam desfrutar de experiências nos mais altos Sephiroth, de modo que não reeencarnariam completamente como indivíduos, mas antes iluminariam aqueles que reencarnam. Entretanto, esta doutrina desafiava tanto as concepções ordinárias sobre a individualidade que os discípulos de Luria não ousavam divulgá-la em sua inteireza.

Issac Luria recusou-se a deixar seus ensinamentos seminais por escrito. Quando seus discípulos solicitaram que o fizesse, ele respondeu: "É impossível, porque todas as coisas estão inter-relacionadas. Mal posso abrir minha boca para falar sem sentir como que o mar rompendo seus limites e inundando tudo. Como então eu expressaria o que minha alma recebeu, e como poderia colocá-lo em um livro?" A despeito de sua recusa em dar a seus ensinamentos um fórum público, a pureza de seu caráter e sua visão compassiva se tornaram conhecidos em todos os centros de estudo místico no Egito, Itália e Europa Central. Muitos de seus discípulos mais próximos se reuniram, depois de sua morte, em torno de Hayyim Vital, e Vital escreveu muitas das doutrinas que podiam ser reduzidas a palavras. Por fim, as idéias de Luria seguiram sua reputação, e durante dois séculos elas eletrizaram e transformaram a religião popular Judaica e afetaram profundamente os pensadores do fim da Renascença. Enquanto que suas instruções individuais sobre meditação não podiam ser transmitidas, uma vez que variavam de acordo com o caráter e temperamento de cada discípulo, o espírito de sua obra interior em prol da restauração é descoberto em uma leitura intuitiva de cada uma de suas preces litúrgicas, ainda em uso hoje em dia.

"Com tua compaixão multiforme,
unifica meu coração,
e o coração de todo teu povo
para que amem e venerem teu Nome.

"E ilumina nossos olhos
na luz de tua Torah,
pois em ti está a fonte da vida:
em tua luz nós veremos a luz".

Autor: Elton Hall
Revisão: Osmar de Carvalho
Fonte: www.theosophy.org

 

 

 

25 de ago de 2012

Plotino e o Neoplatonismo


Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

"A aspiração do homem não deveria limitar-se a não não ser culpado, mas a ser Deus."  Plotino


Durante o período helenístico pós-Alexandre e, posteriormente, no período Imperial Romano, desenvolveram-se várias escolas de filosofia. Entre elas se destacam a dos cínicos, a dos estóicos e a dos epicuristas. Embora sejam escolas com características bem próprias, todas elas tinham por ponto de partida os ensinamentos de Sócrates e/ou dos pré-socráticos Demócrito e Heráclito. Mas, sem dúvida alguma, a mais importante, bela e orignal das escolas do final da Antiguidade foi inspirada pelo gênio de Platão. Por isso ela é chamada de neoplatonismo, se bem que ela seja, de fato, um aperfeiçoamento extraordinário do pensamento filosófico grego, com matizes bem mais originais e estruturadas do que tinha o pensamento platônico. De fato, a escola neoplatônica nos parece extremamente atual, hoje em dia, devido às grandes similiridade entre a visão e concepção de mundo que emergem de seus pressupostos filosóficos básicos e a atual visão de mundo que surge da Física moderna, da Teoria Geral dos Sistemas e da Psicologia Transpessoal. A figura mais importante do movimento neoplatônico foi Plotino.
 
Plotino nasceu em 205 da era cristã, em Licópolis, permanecendo quase toda a juventude em Alexandria até 243 d.C., quando deixou a cidade para seguir o imperador Jordano em sua expedição oriental. Morto Jordano no meio de sua expedição, Plotino deicide ir à Roma, onde chegou em 244 d.C., fundando uma escola, espelhando-se no exemplo de seu mestre e real modelador do movimento neoplatônico: Amônio Sacas.
 
Pelos escritos de um discípulo famoso de Plotino, Porfírio, sabemos que Amônio foi um jovem brilhante, educado no seio de uma família cristã. Mas depois que passou a se dedicar à filosofia, Amônio, por inclinação e vontade próprias, se voltou novamente ao paganismo (talvez por achar mais liberdade por buscar um caminho próprio de entendimento). Segundo Porfírio, ele tinha um alto conhecimento da filosofia de sua época, e, tal como mais tarde faria Plotino, aprofundou-se de tal modo na vivência da filosofia ao ponto de "ter uma experiência direta seja da filosofia praticada pelos persas, seja daquela preponderante entre os hindus" (Porfírio, Vida de Plotino). Outras referências a Amônio são encontradas em obras de Teodoreto, que era um bispo cristão, Hiérocles de Alexandria e em Nemésio, bispo de Emesa.

Amônio preferiu não se dar a público, rejeitando pertencer ao círculo de celebridades consagradas de seu tempo, talvez por sentir uma certa instabilidade emocional no ar entre as escolas cristãs e pagãs, e, por isso viveu de forma modesta e esquiva, afastando-se do burburinho do mundo e cultivando a filosofia não apenas como um exercício de inteligência, mas também de vida e de aperfeiçoamento espiritual, buscando uma percepção direta, de cunho místico (no sentido transpessoal do termo), da realidade, ou da essência, da existência, juntamente com alguns discípulos mais indentificados com a sua mensagem.
  
Tal como Sócrates e Jesus, Amônio nada deixou escrito, mas sua doutrina foi levada adiante e aperfeiçoada pelo gênio de Plotino, tal como, antes, a mensagem de Sócrates foi perpetuada pelo testemunhos de Platão e Xenofonte. Amônio é apresentado como um filósofo que, elevando-se acima das disputas e das plêmicas das outras escolas filosóficas, soube conciliar Platão e Aristóteles e a transmitir a seus discípulos, sobretudo a Plotino, uma filosofia livre do espírituo de polêmica, muitas vezes resultante da mera vaidade pela disputa intelectual. Conta-se que Plotino, chegando a Alexandria, teria ouvido a todas as celebridadas da época, cristãs e pagãs, mas continuava insatisfeito. Levado por um amigo a Amônio, depois de te-lo ouvido falar apenas uma vez, teria dito: "Este é o homem que eu buscava!", e tornou-se seu discípulo por onze anos. Não é à-toa que nos vêm à mente que a relação entre Amônio e Plotino tenha alguma semelhança com a que existiu entre a de Sócrates e Platão. Outros discípulos famosos de Amônio foram Orígenes, o Pagão, Longino, Erênio e Orígines, o Cristão.

Após fundar sua escola, em Roma, Plotino passou de 244 d. C. a 253 d. C. apenas ministrando lições, sem nada escrever, por respeito a um pacto que fizera com Erênio e Orígines, o Pagão, no sentido de não divulgar a doutrina de Amônio. Mas logo seus colegas romperam o trato, permitindo a Plotino escrever tratados, nos quais fixava suas lições. Todos os seus escritos foram ordenados mais tarde por seu discípulo Porfírio, que os dividiu em seis grupos de nove tratados, de onde veio o título Enéadas (leia a tradução inglesa na internet: The Six Enneads by Plotinus - infelizmente, estes textos magníficos não foram traduzidos ainda para o português), pois, em grego, nove se escreve ennea. Estes escritos chegaram integralmente até nós, por sorte, e eles são, juntamente com os diálogos platônicos e os escritos esotéricos de Aristóteles, uma das mais elevadas e sublimes mensagens filosóficas da Antiguidade. Através deles, podemos perceber o grau de profundida espiritual do pensamento de Plotino, intensamente carregado de imagens poéticas, onde vemos lindamente explicadas fenômenos tais como a saída da alma do corpo (projeção), a análise do Uno (holos), como e porque existem um mundo físico e um outro espiritual, etc.

Plotino possuia um carisma especial, e gozou de enorme prestígio em sua época. E seu fascínio era tal que chegou a exercer uma profunda influência sobre a própria teologia cristã, como sabemos pelos testemunhos de Eusébio, do bispo Teodoreto, etc. Suas lições eram assistidas até mesmo pelo imperador Galiano e sua esposa Solonina, e foi tal o impacto que Plotino exerceu sobre eles que o imperador chegou a examinar um projeto de fundar uma cidade de filósofos que deveria se chamar Platonópolis. O projeto não foi adiante devido às tramas dos cortesãos.

Plotino morreu aos sessenta e cinco anos, em 270 d. C. Suas últimas palavras ao médico Eustóquio foram: "Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no universo".

Segundo Reale & Antiseri, a escola de Plotino não se assemelhava a nenhuma das escolas filosóficas anteriores: Platão havia fundado a Academia para a formação de homens que pudessem renovar o Estado; Aristóteles havia fundado o Liceu para organizar e sistematizar a busca do saber; Epicuro havia fundado seu movimento visando dar aos homens a paz e a tranquilidade da alma. Já a escola de Plotino visava ensinar aos homens um modo de entrarem em contato direto com uma realidade mais abrangente, e reunir-se com o divino, de uma forma que hoje chamaríamos de uma experiência direta de cunho transpessoal. Ele dizia que o mero conhecimento intelectual pouco será diante da certeza, da experiência direta das realidades supra-sensíveis. Estas possuiam uma riqueza e uma força transformadora da percepção humana que dificilmente poderiam ser posta em palavras. Aliás, isto é também o que dizem todos os grandes e verdadeiros místicos, santos e pensadores da humanidade, como Mestre Eckhart, São Juan de La Cruz, etc.
 
O fato é que, tal como ocorre em algumas formas de psicoterapia, notadamente a psicologia junguiana e as abordagens existenciais, há fatores significativos em nosso desenvolvimento psíquico que se colocam como indefiníveis, mas altamente significativas a nível intuitivo, já que termos abstratos não são suficentes para descreve-los. Enquanto para a mioria das pessoas, em nossos dias, a única abordagem compreensível da realidade baseia-se na definição de tudo através de conceituações literais, lineares, racionais e impessoais, algumas outras redescobrem que o universo intuitivo pode ser tão ou mais abrangente quanto este causal universo racional. Entre estas pessoas podemos citar Albert Einstein e Carl Gustav Jung. Aliás, Jung julgava ser a intuição e o sentimento faculdades indispensáveis para uma vivência adequada da psique, pois é apenas através de todos os seus elementos (pensamento, sentimento, sensação e intuição) que podemos tentar entendê-la. As dificuldades que a pessoa moderna encontra ao tentar compreender a verdadeira abordagem "mística" (não o fácil e simplório misticismo que vemos sendo vendido a torto e a direito em cada esquina e nas bancas de revistas, mas o real misticismo que vem de dentro da alma) baseia-se no fato de que, como reação à tendência altamente introvertida, supersticiosa e ao obscurantismo da Igreja medieval, o desenvolvimento científico ocidental recente enfatizou excessivamente o pensamento objetivo abstrato, linear e racional. Este desenvolvimento preocupou-se exclusivamente com a utilização prática de objetos externos e necessidades externas e, em nossos dias, culminou no extremo racionalismo lógico e impessoal de nossa sociedade. Assim, a capacidade de sentir e a de intuir não recebem valor ou não são levadas em consideração; os sentimentos são até mesmo considerados como algo dispensável, e as intuições são vistas com desconfiança. Esta é uma abordagem que já vem demonstrando ser falha há muito tempo, já que não é capaz, entre outras coisas, de compreender a motivação básica do comportamento moral do ser humano, por exemplo, que se baseia em alicerces emocionais. Estas áreas até podem ser racionlaizadas, mas a razão em si dificilemente as atinge, pois se assim fosse os cientistas já teriam solucionados problemas como a violência, o suicídio, a apatia, a depressão (que hoje já virou epidemia) e outros males da alma. Os apelos racionais são pouco eficientes quando comparados aos emocionais. Nossa cultura é voltada para a lógica, mas, ao lidar com problemas mais profundos, esta mesma lógica é incapaz de nos oferecer respostas adequadas à compreensão da vida e de seus mistérios. Por que, então, negarmos como fantasias ou irrealidades os fenômenos místicos? Talvez o estado de vigília - considerado o estado pradão normal - seja apenas um de vários níveis de consciência possível ao psiquismo humano.



A Mensagem de Plotino

Plotino, segundo Jostein Gaarder, via o mundo fenomênico e humano como algo que está entre dois polos: Numa extremidade está o divino, de onde tudo vem e para onde tudo vai, ao qual ele chamava de Uno. Plotino abraçava uma concepção holística do universo (é pena que a palvra holismo esteja, hoje em dia, misturada com uma falácia de lixo pseudo-místico, que lhe tiram o signficado real). Às vezes Plotino chamava o Uno de Deus. Na outra extremidade estaria aquilo que Plotino chamava de reino das sombras, onde apenas uma fração ínfima da luz divina chegava. Mas Plotino usava estas metáforas apenas como uma figuração didática. Ele dizia, por exemplo, que estas trevas não tinham uma existência concreta. Elas eram apenas a ausência momentânea da Luz Divina, como mais tarde Mestre Eckhart diria que a matéria era a condensação de algo espiritual. Assim, sendo este extremo apenas ausência de luz, as trevas não são. Elas apenas estão na escuridão. A única existência real é a existência da odem implícita que causa o mundo fenomênico mutável. Assim, só Deus é o real. Mas, assim como uma fonte de luz pouco a pouco se perde na escuridão, também podemos imaginar um lugar onde os raios divinos chegam muito fracos, o que Plotino identificava com a matéria. Mas até mesmo a matéria possui um pouco da luz divina. Sabemos hoje em dia, pela Física, que a matéria nada mais é que uma condensação de algo mais sutil: a nergia.

Eis um belo resumo das analogias poéticas da obra de Plotino (e, por ligação, de Amônio Sacas) dada por Jostein Gaarder:
"Imagine uma enorme fogueira creptando no meio da noite. Do meio do fogo saltam centelhas em todas as direções. Numa amplo círculo ao redor do fogo a noite é iluminada, e a alguns quilômetros de distância ainda é possível ver o leve brilho desta fogueira. À medida que nos afastamos, a fogueira vai se transformando num minúsculo ponto de luz, como uma lanterna fraca na noite. E se nos afastarmos mais ainda, chegaremos a um ponto em que a luz do fogo não mais consegue nos alcançar. Em algum lugar os raios lumiosos se perdem na noite e se estiver muito escuro não vamos enxergar nada. Nesse momento, contornos e sombras deixam de existir".
"Agora imagine a realidade como sendo esta enorme fogueira. O que arde é Deus - e as trevas que estão lá fora são a matéria fria, onde a luz está fraca, da qual são feitos homens e animais. Junto a Deus estão as idéias eternas, as causas de todas as criaturas. Sobretudo, a alma humana é uma 'centelha do fogo'. Mas por toda a parte na natureza aparece uma pouco desta luz divina. Podemos vê-la em todos os seres vivos; sim até mesmo uma rosa ou uma campânula possuem um brilho divino. No ponto mais distante do Deus vivo está a matéria inanimada".

"Digo que tudo o que vemos tem um pouco do mistério divino. Podemos ver o brilho desta alguma coisa num girassol ou numa papoula. Percebemos um pouco mais deste insondável mistério numa borboleta que pousou num galho, ou num peixinho dourado que nada no aquário. Mas o ponto mais próximo em que nos encontramos de Deus é dentro de nossa própria alma. Só lá é que podemos nos re-unir com o grande mistério da vida. De fato, em alguns raros momentos" - como falam Jung e Maslow - "podemos sentir que somos, nós mesmos, este mistério divino". O psicólogo americano Abraham Maslow fez exaustivos estudos provando a existência destas experiências culminantes, frequentemente impossíveis de serem expressas em palavras sem que se percam grande parte de sua força extraordinariamente bela e luminosa, e o onde a sensação de íntimo encontro com algo transcendete é o leitmotiv dominante.

As imagens que Plotino usa, e que Jostein Gaarder acabou de resumir, nos remetem ao mito da caverna de Platão. Mas enquanto Platão é dualista, distinguido de forma estanque a oposição entre o espírito e a matéria, Plotino nos aponta para a realidade de que o isto está também ligado ao aquilo (como também falava Buda), que o universo é uma imensa rede de relações onde tudo tem sua razão de ser no conjunto, no holos. Tudo está ligado a tudo, e tudo é Um, pois tudo concorre para o andamento da obra de Deus. Até mesmo as sombras têm uma tênue parte desta "Unidade" ((holismo)).

Em alguns momentos de sua vida, Plotino experimentou a vívida sensação de unir, fundir sua alma com Deus. Em nosso século, Abraham Maslow fez uma enorme pesquisa para provar que as pessoas mais saudáveis e carismáticas experimentaram, pelo menos uma vez na vida, uma espécie de experiência de pico (as Peak Experiences de Maslow) onde parece que as divisões convencionais do intelecto humano parecem perder todo o sentido, e a pessoa sente-se plena de uma paz e de um contato mais íntimo com algo transcendetal. Chamamos a este tipo de experiência de experiência mística. Plotino, porém, como sabemos, não foi único a viver essa experiência. Como nos fala Jostein Gaarder, pessoas de todas as culturas, em todos os tempos, têm relatado experiências semelhantes. Hoje o estudo dessas experiências é feito pela Psicologia Transpessoal. E um ponto básico destes relatos é o de que, embora ocorram variantes na descrição desses fenômenos - devido ao pano de fundo cultural e às crenças do sujeito -, esses relatos têm muitos e supreendentes pontos em comum.


Misticismo


Em praticamente todos os relatos sobre os chamados êxtases místicos, desde Plotino (e mesmo antes dele) até os dias de hoje com os pacientes/clientes da psicoterapia transpessoal, o que vemos é uma espécie de união íntima com algo que transcende nossos conceitos de realidade, que é difícil de por em palavras. Na nossa cultura cristã - embora o próprio Cristo tenha relatado muitas vezes que ele se sentia um com o Pai, de dizer que "vós sois deuses" e de que "O Reino está em vós" - o padres, pastores e teólogos vários nos inculcam que Deus fez o mundo sem que se envolvesse com o mundo, ou seja, que há um abismo entre Deus e sua criação. Deus teria feito as coisas e estaria apenas observando o andamento do drama universal, às vezes interferindo momentâneamente em algo, nos chamados milagres. Mas no oriente, especialmente no budismo e no taoísmo, e no ocidente, nas religiões originais dos celtas e gauleses (druidas), bem como em alguns de nossos índios da América do Norte e do Sul, em em todos os místicos de qualquer religião, o que se vivencia é uma sensação de união, onde este abismo é desconhecido (veja-se os relatos de Teresa D'Ávila e Juan de la Cruz). O que ele - ou ela - conhece é uma elevação a Deuss (Gaarder, 1995; Grof, 1988; LeShan, 1994).Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, bem como Plotino, nos dizem que aquilo que chamamos comumente de "eu" não é nosso eu verdadeiro, é apenas uma máscara, o ego. Em momentos de profundo amor e/ou emoção ou paz podemos sentir rapidamente uma espécie de contato com um eu mais profundo, que Jung chamava de self, e que alguns místicos chamam de Cristo interior. Alguns vão ainda mais além, e se sentem unidos ao próprio Deus, ou a uma "consciência cósmica" - termo muito utilizado na Psicologia Transpessoal. O místico cristão Angelus Silesius (1624-1677) assim se expressou sobre esta experiência: "A pequena gota (o indivíduo) se transforma em mar quando chega até ele; e assim a alma se transforma em Deus quando é nele acolhida" (Gaarder, 1995, p. 154).

Ora, o ego pode se revoltar contra a possibilidade de perder o controle e a pessoa se "perder a si mesma" nesta fusão íntima com a consciência cósmica, mas, como muito bem disse Jostein Gaarder, esta pseudo-perda (na verdade o ego não é eliminado, continua a existir) é algo muito insignificante diante daquilo que se ganha (veja-se a parábola de Jesus sobre o semeador que encontra uma pérola no campo, e vende tudo o que tem para comprar aquele campo). O místico perebe que seu ego é apenas uma parte ínfima de si mesmo. Compreende que o "eu" real é algo infinitamente maior. Compreende que faz parte do universo inteiro, que é Deus. É por isso que os hindus dizem que o Eu é o maior amigo do ego, mas o ego é o pior inimigo do Eu. Ora, como nos diz Jostein Gaarder, se tememos nos perder enquanto indivíduos num mundo que para nós é a realidade (o mundo comum), talvez sirva de consolo e estímulo saber que um dia de qualquer forma termos de perder este "eu cotidiano" de uma forma ou de outra. Por que não tentar experimentar o verdadeiro Eu conseguindo-se se libertar do jugo de um eu egóico? "Aquele que quiser conservar sua vida, perde-la-á, e aquele que quiser perder sua vida, por amor à verdade, a ganhará", já dizia o Cristo.

Jostein Gaarder aponta com muita propriedade que encontramos vertentes místicas em todas as grandes religiões do mundo. "E tudo o que os místicos escrevem sobre suas experiências apresenta visíveis semelhanças, a despeito de todas as diferenças culturais. Somente quando o místico tenta uma interpretação religiosa ou filosófica para a sua experiência é que se evidencia o pano de fundo cultural". (Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, 1995, p. 155).

Pelos trabalhos em Psicologia, especialmente na Psicologia Junguiana, na Gestalt Terapia e nas terapias humanistas, e principalmente nas Psicoterapias de orientação Transpessoal, sabemos que pessoas que não pertencem a nenhuma religião têm passado e relatados experiências místicas. Elas experiementam espontâneamente algo que chamam, entre outras coisas, de "consciência cósmica" ou, como Freud chamava, de "experiências oceânicas": neste momento, tempo e espaço e outras limitações físicas não passam de figurações fantasiosas da percepção humana. A única coisa que existe é a sensação de completude e consciência de se estar imerso e lúcido de uma realidade maior e mais bela.


Bibliografia Sugerida 
 

Campbell, Joseph, O Poder do Mito, Palas Athenas São Paulo, 1990
Porfírio. Vida de Plotino/Eneadas I-II, Editora Gredos, Madrid, 1996.
Grof, Stanislav. Além do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia, McGraw-Hill, São Paulo, 1988
Reale, Giovanni & Antiseri, Dario. História da Filosofia Vol. I, Ed. Paulus, São Paulo, 1990
Gaarder, Jostein. O Mundo de Sofia, Companhia das Letras, São Paulo, 1995
LeSham, Lawrence. O Médium, o místico e o físico, Summus Editorial, São Paulo, 1993


23 de ago de 2012

Todos os Meninos, Todas as Meninas

A ordem que obedece a uma fórmula, a um ideal ou conceito é, simplesmente, desordem.

http://2.bp.blogspot.com/_8xg6npjRLj8/S-H136rD4kI/AAAAAAAAAr8/9jydPqbdxYU/s1600/o_mito_da_caverna.jpg

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o priosioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.

Extraído do livro "Convite à Filosofia" de Marilena Chaui.



  
   
"Uma rosa vermelha absorve todas as cores,
menos a vermelha;
Vermelha, portanto, é a única cor que ela não é.
Essa Lei, Razão, Tempo, Espaço,
toda Limitação, cega-nos à Verdade
Tudo o que sabemos sobre o Homem, Natureza, Deus,
é apenas aquilo que eles não são;
é aquilo que rejeitam como repugnante."
Aleister Crowley

  
(Pode-se comparar o sol de Platão ao SELF de Jung, onde no pensamento de Platão temos a história de um homem que se desprende da caverna para encontrar a fonte de luz exterior e na metanóia (Redenção) de Jung temos um homem que entra no inconsciente (Trevas/Caverna) para encontrar a luz interior. Em um certo momento da vida é preciso que este perceba a existência do sol ou self e se prepare para confrontá-lo, sem morrer vivendo uma ilusão, acorrentado à persona, no interior da caverna, sem alcançar o próprio sol, completando assim o ciclo de desenvolvimento psicológico)

 

12 de ago de 2012

Iluminação no Cotidiano

 "A tarefa do Mago é abandonar a própria obra, porque se não o fizer por meio de liberdade, esta obra será a sua prisão." Alaister Crowley

Pedro Kupfer

Samadhi: dentro ou fora da prática?
A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyasa e vairagya), postulado por Patañjali nos seus Aforismos do Yoga (Yoga Sutra). O segundo caminho que propõe a iluminação como forma de vida é muito menos conhecido. Nele, iluminar-se não significa negar ou ficar de costas para o corpo e para a vida no mundo. A experiência da libertação e a existência no mundo real são perfeitamente compatíveis. Essa possibilidade de levar uma vida onde a iluminação aconteça concomitantemente com o cotidiano é conhecida no Yoga como sahaja samadhi

O samadhi pode ser definido como um estado de consciência em que a dicotomia sujeito-objeto, característica do estado de vigília, é temporariamente abandonada através da identificação total do meditador com o objeto da meditação. 

Não obstante, temos uma péssima notícia para os entusiastas: experienciar o samadhi não é garantia de que o ego e a mente serão aniquilados. Fatalmente, após esta profunda experiência, existe a volta às experiências do corpo, da mente e do ego. Tudo continua como estava antes: os medos, os condicionamentos e o sofrimento voltam à tona. Tornar-se mais forte do que as próprias fraquezas interiores é tarefa das mais árduas, pois viver em estado de dualidade é um hábito do qual é extremamente difícil se libertar. 

É por isso que algumas tradições yogikas não dualistas, tanto tântricas quanto vedânticas, negam enfaticamente a necessidade de buscar essas experiências. Elas não são nem definitivas nem duradouras.
A idéia é que não devemos libertar-nos do mundo, mas no mundo. O mundo não é algo diferente de nós mesmos, do qual devamos fugir. O mundo é uma projeção do poder da Consciência Infinita, que está igualmente presente em nossa essência mais profunda. Portanto, tudo é sagrado.

O Tripura Rahasya e a iluminação espontânea
Essa atitude, revolucionária em termos do que se entende por prática de Yoga atualmente, está belamente expressada num shastra do tantrismo shaktadvaita (shaktismo não-dualista) chamado Tripura Rahasya ('O Segredo das Três Cidades') e atribuído ao sábio Shri Dattatreya. Este texto narra a história do príncipe Hemachuda e a princesa Hemalekha, do reino de Videha e tem como objetivo demonstrar que nem sequer mil samadhis conseguem tirar a pessoa da rede de seus próprios karmas e samskaras.

A história é a seguinte. Um dia, o príncipe estava caçando na floresta quando foi supreendido por uma forte tormenta. Vislumbrando em meio à chuva, a ermida de um sábio no alto de uma montanha, tomou a decisão de refugiar-se nela. A bela filha do sábio, Hemalekha, abriu a porta e deu-lhe as boas-vindas. O príncipe apaixonou-se imediatamente pela moça sua mão em casamento. Obtida a aprovação do pai, eles casaram-se.

O tempo passou e, apesar de Hemalekha ser uma ótima esposa, bondosa e atenta, parecia não compartilhar a paixão pela vida que seu marido exibia. Pelo contrário, estava sempre serena, e um pouco ausente, como que indiferente, tanto perante as coisas boas, quanto perante as coisas ruins que acontecessem.

Isso produziu uma certa frustração no apaixonado príncipe, que, interrogando-a, obteve uma resposta que era, ao mesmo tempo, um pedido: 'Estou em busca da felicidade eterna. Por favor, ajude-me a encontrá-la'.
De início, o príncipe achou que o pedido de sua esposa era absurdo e começou a questioná-la. Ao perceber a penetrante sabedoria de suas respostas, descobriu que estava tendo com ela o diálogo mais profundo que jamais tivera e vislumbrando coisas nas quais nunca  tinha pensado antes. Como resultado desse diálogo, ele próprio entrou numa profunda crise existencial e acabou por fechar-se em seu quarto para encontrar a iluminação. Não tardou muito em atingir e dominar o samadhi.

Uma vez, quando a princesa foi visitá-lo em um dos raros momentos em que ele estava fora desse estado transcendental, ele lhe disse: 'Alcancei a felicidade perfeita do samadhi'. Porém, novamente, a bela e sábia Hemalekha, com sua profunda acuidade, demonstrou-lhe tranqüilamente que estava enganado. 

Disse-lhe então: 'Meu querido, creio que você ainda não aprendeu nada. Você está tão longe do samadhi quanto o reflexo das estrelas numa poça d'água está do céu, pois somente experiencia essa felicidade quando está sentado meditando. Que tipo de iluminação é essa que se dissolve quando você abre os olhos e se levanta?'.

Argumentou que, se precisava ainda concentrar-se tanto para entrar em samadhi, não tinha conquistado o estado da felicidade suprema. Todavia, fez o príncipe perceber que o Ser Infinito que estava procurando não estava apenas dentro de si próprio, mas igualmente fora dele, em todas as coisas. Finalmente, revelou-lhe que o objetivo verdadeiro e secreto do Yoga é a felicidade real do sahaja samadhi.

Como resultado da aplicação desses ensinamentos, Hemachuda alcançou a verdadeira iluminação através do sahaja samadhi. Naturalmente, também percebeu que sua esposa já havia alcançado esse estado havia tempos e ficou devidamente grato a ela. Assim governaram na paz do samadhi espontâneo, e todos no reino foram felizes.

Sahaja significa em sânscrito 'nascer junto'. Esse termo faz referência à união de dois pólos que acontecem nesse estado: mukti e bhukti, ou libertação e experiência no mundo. Assim, o sábio Yajñavalkya nos diz na Ashtavakra Gita, II:1-2:

Eu sou a pura e serena Consciência, mais além da natureza.
Durante muito tempo fui cegado pela ignorância.
Como o Único, ilumino este corpo e o mundo.
Possuo o mundo inteiro e, em verdade, nada possuo.


 


  

11 de ago de 2012

Paciência


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/53/Pacientia_or_Patience.jpg/369px-Pacientia_or_Patience.jpg

 Paciência vem do latim pati, "aguentar, sofrer", do grego pathe, "sentimento". Daí também vêm "simpatia" e "patologia", bem como "paciente", a pessoa que precisa ser tratada de alguma doença. Paciência é uma virtude de manter um controle emocional equilibrado, sem perder a calma, ao longo do tempo. Consiste basicamente de tolerância a erros ou fatos indesejados. É a capacidade de suportar incômodos e dificuldades de toda ordem, de qualquer hora ou em qualquer lugar. É a capacidade de persistir em uma atividade difícil, tendo ação tranqüila e acreditando que você irá conseguir o que quer, de ser perseverante, de esperar o momento certo para certas atitudes, de aguardar em paz a compreensão que ainda não se tenha obtido, capacidade de ouvir alguém, com calma, com atenção, sem ter pressa, capacidade de se libertar da ansiedade. A tolerância e a paciência são fontes de apoio seguro nos quais podemos confiar. Ser paciente é ser educado, ser humanizado e saber agir com calma e com tolerância. A paciência também é uma caridade quando praticada nos relacionamentos interpessoais. Diz-se que dentre as sete virtudes, a mais difícil de desenvolver é a paciência, mas uma vez desenvolvida, esta traz inúmeros benefícios. Uma pessoa paciente sabe que é preciso praticá-la muito até alcançar um objetivo final desejado.




   

2 de ago de 2012

Aventais de Folhas de Figueira




Mirdad:

Já ouvistes falar do Pecado, e agora deveis saber como o Homem se tornou pecador.

E declarais -não sem mérito -que se o Homem, a imagem e semelhança de Deus, é pecador, então Deus mesmo deve ser a origem do Pecado. Existe aí uma armadilha para o desavisado; e eu não quero, companheiros, que sejais presos na armadilha. Por isso vou retirá-la do vosso caminho, para que possais também retirá-la dos caminhos dos homens.

Não há pecado em Deus, a não ser que consideremos pecado dar o Sol algo de sua luz a uma vela. Nem há pecado no Homem, a não ser que consideremos pecados queimar-se uma vela inteiramente no Sol e assim juntar-se ao Sol,

Há, porém, pecado na vela que se recusa a ceder a sua luz e que, quando se aplica o fósforo a seu pavio, amaldiçoa o fósforo e a mão que a segura. Há pecado na vela que tem vergonha de se queimar no Sol e que, por isso, se oculta do Sol.

O Homem não pecou por desobedecer à Lei, mas por querer encobrir a sua ignorância da Lei.

Sim! Há pecado no avental de folha de figueira.

Não lestes a história da queda do Homem, tão simples e ingênua nas palavras, porém tão sublime e sutil no seu significado? Não lestes como o Homem, recém saído do seio de Deus, era como um Deus recém-nascido passivo, inerte, não criador? Isso porque, embora dotado de todos os atributos da divindade, era, como todos os recém-nascidos, incapaz de conhecer e de exercitar as suas infinitas capacidades e talentos.

Como uma semente solitária encerrada em belíssimo frasco, achava-se o Homem no Jardim do Éden. A semente, encerrada em um frasco, permanecerá semente, e jamais as maravilhas que nela se acham encerradas, debaixo da casca, serão estimuladas para a vida e a luz, a não ser que seja escondida num solo análogo à sua natureza e que a casca seja rompida.

O Homem, porém, não possuía solo algum que lhe fosse análogo onde pudesse plantar-se e brotar.

A sua face jamais encontrara outra face na qual pudesse refletir-se. Era um ouvido humano que jamais ouvira outra voz humana. Era uma voz humana que jamais tivera eco em outra voz humana. Seu coração batia solitário.

Solitário, inteiramente solitário, encontrava-se o Homem, em meio a um mundo bem aparelhado e lançado ao seu destino. Era um estranho para consigo mesmo; não tinha trabalho a executar nem plano a seguir. O Éden, para ele, era o que é para o recém-nascido um berço confortável um estado de bem-aventurança passiva; uma incubadeira bem aparelhada.

A árvore do conhecimento do Bem e do Mal e a árvore da Vida estavam, ambas, ao seu alcance; ele,porém, não estendia a mão para colher e provar dos seus frutos, pois o seu paladar, os seus pensamentos, os seus desejos e até mesmo a sua vida estavam todos encerrados nele mesmo, esperando para serem vagarosamente libertos. E ele, por si mesmo, não os podia libertar. Conseqüentemente, fez-se com que ele produzisse um auxiliar para si, a mão que o ajudasse a desatar seus muitos envoltórios.

Onde melhor se poderia obter este auxílio senão no seu próprio ser, tão rico devido à sua alta potência em divindade? Isto é muito significativo.

Eva não é novo pó nem novo alento; mas o mesmo pó e o mesmo alento de Adão ossos dos seus ossos e, carne da sua carne. Não surge outra criatura em cena; mas o mesmo Adão solitário e duplicado um Adão- masculino e um Adão-feminino.

Assim, o rosto solitário e sem reflexo obtém uma companhia e um espelho; e o nome, sem eco em nenhuma voz humana, principia a reverberar em doces estribilhos, acima e abaixo pelas alamedas do Éden. O coração, cujo palpitar solitário era abafado num peito solitário, principia a sentir o seu pulso e a ouvir sua palpitação em um coração companheiro e num peito companheiro.

Assim o aço, sem faíscas, encontra o sílex que o fará emitir faíscas em abundância. Assim à vela, que não havia sido acesa, é acesa em ambas as pontas.

Uma é a vela, um é o pavio e uma a luz, embora venha de ambas as pontas. Assim, a semente no frasco encontra o solo onde possa germinar e revela os seus mistérios.

Assim a Unidade, inconsciente de si mesma, obtém Dualidade, para que, por meio da fricção e da oposição da Dualidade, possa compreender a sua unidade. Nisso também o Homem é a fiel imagem e semelhança de Deus, pois Deus -a Consciência Original -projeta de Si a Palavra, e tanto a Palavra como a Consciência são unificadas na Sagrada Compreensão.

Não é um castigo a Dualidade, mas um processo inerente à natureza da Unidade e necessário para o desenvolvimento da sua divindade. Como é infantil pensar de outro modo! Como é infantil acreditar que um processo, tão maravilhoso, possa terminar o seu curso em três vintenas de anos mais dez, ou mesmo em três vintenas de milhões de anos!

E tão pouco importante assim tornar-se um deus?

Será Deus um amo assim tão cruel e miserável que, tendo toda a eternidade para presentear, não concedesse ao Homem mais do que o pequenino espaço de tempo de setenta anos para que este se unificasse e readquirisse o Éden, inteiramente consciente da sua divin dade e da sua unidade com Deus?

E longo o curso da Dualidade, e tolos são aqueles que o medem com calendários. A Eternidade não se mede pelas revoluções das estrelas.

Quando Adão, o passivo, o inerte, o não criador, foi tornado duplo, ele, conseqüentemente, se tornou ativo, cheio de movimento e capaz de criar e procriar-se.

Qual foi o primeiro ato de Adão depois de se tornar duplo? Foi comer da árvore do conhecimento do Bem e do Mal e, desse modo, fazer todo este mundo duplo como ele. As coisas deixaram de ser como haviam sido: inocentes e indiferentes. Estas se torna- ram boas ou más, úteis ou prejudiciais, agradáveis ou desagradáveis; tornaram-se dois campos opostos, ao passo que antes eram um.

E a serpente que enganou Eva, para que provasse o Bem e o Mal, não era a profunda voz ativa, embora inexperiente, da Dualidade, estimulando-se para a ação e a experiência?

Não admira que Eva fosse a primeira a ouvir essa voz e a ela obedecer. Eva era como se fosse a pedra de afiar, o instrumento destinado a tornar manifestos os poderes latentes do seu companheiro.

Não estivestes vós, já muitas vezes, a imaginar esta primeira Mulher, da primeira história humana, caminhando, furtivamente, por entre as árvores do Éden, com os nervos à flor da pele, com o coração palpitando como o de um pássaro que caiu na armadilha, com os olhos a procurar por todos os lados se alguém a estava observando, com a boca úmida e a mão trêmula estendida para a fruta? Não tendes suspendido a respiração, ao imaginardes que ela apanhou a fruta e fincou os dentes na polpa macia, para sentir-lhe momentaneamente a doçura, que se teria de transformar em amargura eterna para ela e sua prole? Não tendes desejado, de todo o coração, que Deus paralisasse a audácia louca de Eva, aparecendo-lhe no momento exato, em que ela estava para cometer aquela ação estouvada, e não de pois, como Ele o faz na lenda? E tendo ela cometido aquele ato, não tendes desejado que Adão tivesse a sabedoria e a coragem de abster-se de se tornar o seu cúmplice?

No entanto, nem Deus interveio, nem Adão se absteve. Isso porque Deus não queria que sua semelhança se lhe tornasse dessemelhante. Era Sua vontade e Seu plano que o Homem caminhasse o longo caminho da Dualidade a fim de desenvolver sua própria vontade, planejar e unificar-se pela Compreensão. Quanto a Adão, ele não poderia, mesmo que quisesse, rejeitar o fruto que lhe era oferecido por sua esposa. Era-lhe obrigatório comê-lo, simplesmente porque sua esposa havia comido dele, pois ambos eram uma carne, e cadaqual era responsável pelos atos do outro.

Indignou-se e irou-se Deus porque o Homem comeu o fruto do Bem e do Mal? Deus o proibira. E o fez porque sabia que o Homem não podia deixar de comer, e Ele queria que o Homem o comesse; queria também que o Homem soubesse antecipadamente as conseqüências de comê-lo e tivesse a coragem de arcar com tais conseqüências. E o Homem teve coragem. E o Homem comeu. E o Homem arcou com as conseqüências.

A conseqüência foi a Morte. Ao se tornar ativa- mente Dual pela vontade de Deus, morreu para a unidade passiva. Logo, a Morte não é um castigo, mas uma fase na vida inerente à Dualidade. A natureza da Dualidade é tornar todas as coisas duais e dar a tudo uma sombra. Assim Adão adquiriu a sua sombra em Eva, e ambos obtiveram, em suas vidas, uma sombra chamada Morte; mas Adão e Eva, embora sombreados pela Morte, continuam a ter uma vida sem sombras na vida de Deus.

A Dualidade é uma fricção constante; e a fricção dá a ilusão de duas superfícies que se opõem, inclinadas à autodestruição. Realmente estão se completando, preenchendo e trabalhando de mãos dadas por um só objetivo: a paz perfeita, a unidade e o equilíbrio da Sagrada Compreensão. A ilusão, porém, está enraizada nos sentidos e persiste, enquanto estes persistem.

Eis por que Adão respondeu a Deus, quando Deus o chamou, depois de os seus olhos terem sido abertos: ""Eu ouvi a tua voz no jardim, e eu tive medo porque eu estava nu e eu me escondi". Como também "a mulher que tu me deste para minha Companheira, ela me deu do fruto da árvore, e eu o comi ".

Eva não era mais do que carne e ossos de Adão. Pensai, porém, neste novo eu de Adão, o qual, depois de os seus olhos terem sido abertos “principiou a se ver como algo diferente, separado e independente de Eva, de Deus e de toda a criatura de Deus”.

Este eu era uma ilusão. Uma ilusão dos olhos recém-abertos, era esta personalidade desligada de Deus.

Não tinha substância nem realidade. Havia sido criada para que, após a sua morte, o Homem pudesse conhecer o seu Ser real, que é o Ser de Deus. Este eu falso desaparecerá quando os olhos externos se apagarem, e o olho interno for iluminado. Embora isto deixasse Adão confuso, servia para estimular a sua mente e espicaçar a sua imaginação. Ter um eu que se possa considerar inteiramente pessoal é verdadeiramente muito lisonjeiro e tentador para o Homem, que não é consciente de nenhum eu.

E Adão foi tentado e lisonjeado pelo seu eu ilusório. Embora estivesse envergonhado dele, por ser muito irreal ou nu, dele não queria separar-se; ao contrário, agarrava-se a ele de todo o coração e com toda a sua engenhosidade recém-nascida. Por isso costurou folhas de figueira e fez para si um avental, com que escondesse a nudez da sua personalidade, tentando conservar- se oculto da vista Onipenetrante de Deus.

Desse modo o Éden, o estado de bem-aventurada inocência, a unicidade inconsciente de si mesma, caiu do Homem dual, revestido de aventais de folhas de figueira; e espadas de fogo foram postas entre ele e a Arvore da Vida.

O Homem saiu do Éden pelo duplo portão do Bem e do Mal; a ele voltará pelo portão singelo da Compreensão. Retirou-se dando as costas à Arvore da Vida; voltará com o rosto voltado para essa Arvore. Inicioua sua longa e penosa viagem, envergonhado da sua nudez, e tendo o cuidado de esconder a sua vergonha; chegará ao fim da sua viagem com a sua pureza sem aventais e o coração ufano da sua nudez.

Isso, porém, não se dará enquanto o Homem não seja, pelo Pecado, liberto do Pecado, pois o Pecado será a própria ruína do Pecado. E onde está o Pecado senão no avental de folhas de figueira?

Sim, o Pecado nada mais é do que a barreira que o Homem coloca entre ele próprio e Deus -entre o seu eu transitório e o seu Eu eterno.

A princípio, um punhado de folhas de figueira, essa barreira veio a tornar-se um poderoso baluarte. Desde o momento em que abandonou a inocência do Éden, o Homem tem estado ocupadíssimo em reunir cada vez mais folhas de figueira e a costurar um sem número de aventais.

Os indolentes se satisfazem em remendar os rasgões dos seus aventais com os trapos abandonados pelos seus próximos mais trabalhadores; e cada remendo na indumentária do Pecado é pecado, pois tende a perpetuar a vergonha, que foi o primeiro e pungente senti mento que o Homem teve após separar-se de Deus.

Está o Homem fazendo algo para livrar-se desta vergonha? Não! Todo o seu esforço é vergonha sobre vergonha, aventais sobre aventais.

Que são as artes e a instrução do Homem, senão folhas de figueira?

Seus impérios, nações, segregações raciais e religiões, na vereda da guerra, não são cultos de adoração à folha de figueira?

Seus códigos do bem e do mal, de honra e desonra, de justiça e de injustiça; seus incontáveis credos sociais e suas convenções, que são, senão aventais de folhas de figueira?

O seu avaliar o inavaliável, e medir o imensurável, e padronizar aquilo que está além do padronizável, não é remendar a já ultra-remendada tanga?

A sua avidez pelos prazeres que estão pejados de sofrimento; a sua ambição pelas riquezas que empobrecem; a sua sede pelo mestrado que subjuga; a sua cobiça pela grandeza que achincalha não são todas essas coisas aventais de folhas de figueira?

Nesta corrida patética para cobrir a sua nudez, o Homem vestiu um grande número de aventais que, no correr dos anos, agarraram-se tão fortemente à sua pele, que ele já não distingue os aventais da sua pele. E o Homem se sente sufocado, e clama por quem o liberte de tantas peles. No entanto, em seu delírio, o Homem tudo faz para ser liberto de sua carga, menos aquilo que o poderia aliviar e que seria atirar fora essa carga. Ele quer libertar-se de sua carga e se agarra a ela com todas as suas forças. Deseja estar nu e, no entanto, se mantém completamente vestido.

E chegada a hora de se despir, e eu vim para vos auxiliar a lançar fora as vossas peles desnecessárias - vossos aventais de folhas de figueira -para que assim possais também auxiliar a todos aqueles que anseiam por se verem livres dos seus. Eu só ensino como fazê-la, mas cada qual terá de se livrar dos seus, por mais doloroso que lhe seja o despir-se.

Não espereis por nenhum milagre que vos salve de vós próprios, nem receeis a dor; a Compreensão nua converterá a vossa dor em um perene êxtase de alegria.

Se vós enfrentardes a vós próprios, na nudez da Compreensão, e se Deus vos chamar e perguntar: "Onde estais?" não vos envergonheis, nem temais, nem vos oculteis de Deus, mas, ao contrário, deveis permanecer firmes, sem receio e divinamente calmos, respondendo a Deus:

“Eis-nos aqui, Deus nossa alma, nosso ser, nosso único eu. Envergonhados, medrosos e sofrendo dores, caminhamos pela áspera e tortuosa vereda do Bem e do Mal que Tu nos apontastes na aurora do Tempo. A Grande Nostalgia apressou os nossos passos, e a Fé sustentou os nossos corações, e agora a Compreensão nos libertou das nossas cargas, curaram as nossas feridas e nos trouxe de volta à Tua Santa Presença, nus do Bem e do Mal, da Vida e da Morte; nus de todas as ilusões da Dualidade, nus exceto do manto do vosso Ser que tudo envolve. Sem folhas de figueira para esconder a nossa nudez, aqui estamos diante de Ti, livres da vergonha, iluminados e sem temor. Vede, estamos unificados. Vede, nós vencemos

E Deus vos abraçará, com infinito Amor, e vos levará diretamente à Sua Arvore da Vida.

Assim ensinei eu a Noé.

Assim agora eu vos ensino.

Noronda: Também isso nos foi dito pelo Mestre à volta do braseiro.


 
 
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